Por que não te calas, Serena?

Por: Dapheny Feitosa

“Não confunda docilidade com fraqueza” a frase aparentemente inocente, até motivacional, é dita pela personagem Serena Joy na série The Handmaid’s Tale, baseada no romance homônimo de Margaret Atwood. Serena é uma aliada do patriarcado, são as suas mãos que seguram os braços das mulheres que aquela sociedade distópica, mas possivelmente real, condena como “não mulheres”. Mulheres que não casaram, que lidavam bem com suas sexualidades, que mantiveram relacionamentos extra-conjugais, que priorizaram suas carreiras, todas essas seriam categorizadas em vermelho, tapa olho e cabeças baixas como “não mulheres”. A primeira edição do livro de Margaret é de 1985, o ano em que eu nasci, e em entrevista a autora já afirmou que nada nele é inventado, que tudo que se passa em Gilead alguma mulher já viveu em algum lugar desse planeta de homens.

Serena não é uma desconhecida para mim, eu a reconheço, eu a conheço há muitos anos, ela tem me rondando nos últimos 36 anos, segurando minhas mãos e sussurrando ao meu ouvido que não sou como ela, que estou errada, que sou inadequada, pecadora, rebelde. Mas já que sou assim, já que durante toda a vida me disseram que sou assim, apesar de eu nem ter certeza se sou assim ou se só mergulhei nesta caixa de areia movediça que decidiram me colocar, resolvi ser como dizem, livre. E já faz tempo, aos dezesseis, tatuei um liberté no meu pé para não esquecer. No dia seguinte, uma serena amiga me cochichou “e quando você envelhecer?”. Só “não mulheres” envelhecem tatuadas, foi o que ela quis dizer. O resquício da juventude em um corpo que enruga, que se encolhe, que se deteriora é impossível, é errado. Quando vesti uma camiseta com a palavra vadia escrita em caixa alta, uma outra serena amiga decidiu que iria me dizer que o rótulo não cabia a mim. Por quê? Ele deveria caber a mais alguém? Quem são as vadias? Por que são vadias? Perguntas que ela não quis pensar comigo. A incoerência é que eu vivi meus 18, 19 anos ao lado dessa amiga e sei que atitudes dela a levaram por outras pessoas ao rótulo de vadia, quando na verdade ela só estava descobrindo como se ama nesse mundo que só nos ensinam a odiar a nós mesmas e ao nosso prazer.

As serenas de hoje, estas que surgem nas redes sociais como mentoras, estabelecem uma tríade para o ser mulher: Deus, bíblia e um marido. O anulamento do que chamam de “energia masculina”, a responsabilidade pelo “humor” da casa, o passo a passo de como ser cortejada por um homem sem castrá-lo, sem diminuí-lo, sem constrangê-lo. A falsa impressão de que controlam os homens com os quais se relacionam não pela agressividade – como gostam de categorizar uma mulher que impõe limites em uma relação – mas porque com “docilidade”se sujeitam a única missão que lhes pertence, manter seus relacionamentos e seus postos de esposas independente do quanto lhes custem, e como relações pajeadas pelo patriarcado custam muito, vão deixando pelo caminho pedaços inteiros de si. Mas, por que agem assim? Por que minha amiga resolveu que era mais fácil ou melhor viver assim?

Quando aos dezesseis resolvi ser o que meus pés escreviam, a liberdade que almejava custou-me o afastamento daqueles que considerava amigos, as etiquetas dos rótulos que colaram em meu corpo, a expectativa negativa dos que sentiam prazer em esperar que eu fosse punida, pois para as “não mulheres” é a punição divina ou humana que nos espera e o que desejam as carcereiras a espreita. Encontrar o meu lugar no mundo foi então o único caminho possível para que eu pudesse ser quem eu sou. Eu e meus pés, caminhando a passos largos em direção contrária ao que pregava ser minha responsabilidade, cuidar e proteger de um homem porque é da natureza dele ser fraco e tempestivo e ser submissa a ele, mesmo percebendo a insustentabilidade disso, é sinônimo de sabedoria feminina. Daqui, enquanto analiso, percebo que os dois caminhos são difíceis, afinal, não há escolha fácil quando se é mulher. Meu caminho me custou, mas estou inteira, pergunto-me quanto dessas mulheres serenas tem ficado pelo caminho. Seus sonhos, seus prazeres e quanta energia é necessária para aceitar-se docilmente inferior. 

A Serena de Margareth Atwood se acha superior às “não mulheres”, mas, na primeira tentativa de ter voz, o patriarcado lhe arranca o dedo como em um lembrete definitivo, assim como uma tatuagem, que para o patriarcado toda mulher é sempre uma “não mulher”.

Obsessivas por ordem e padrão, assim como a estética da série baseada no livro de Margareth, as novas serenas de sempre parecem estabelecer um código visual de linhas retas, cabelos sem frizz, sobrancelhas desenhadas em esquadros, alfaiataria, cortes perfeitos, por isso é possível reconhecê-las tão facilmente nos anúncios pelo Instagram ou, ainda, quem não lembra da comparação entre uma roupa usada por Michele Bolsonaro e Serena Joy que circulou nas redes? O estabelecimento de uma ordem sustentada por muita repressão, julgamento e castramento. Uma ordem que anula toda a nossa individualidade, que nos massifica e que nos prepara para a missão do casamento, depositando sobre nós a responsabilidade do árduo desafio de mantê-lo em pé. A fórmula deste anti-feminismo ou feminilidade ao invés de feminismo, como costumam afirmar, é antiga, mas hoje as serenas usam Instagram e cores pastéis enquanto tentam segurar nossas mãos.

Na série, é simbólico que Serena presenteie com bailarinas em caixas de música, uma feminilidade aprisionada, sempre estática, sempre fazendo o que se espera. Não serei eu a me aprisionar em uma caixa de música, eu posso mais do que rodar em círculos, meus pés não estão presos. Eu posso até voar.

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