Agrotóxicos: o que não aparece nas propagandas nem nas estatísticas

Por: Shirleyde Santos

 

E o pulso ainda pulsa…

E o corpo ainda é pouco…

Titãs

 

 

Dor de cabeça. Tontura. Desmaio. Falta de ar. Olhos irritados. Coceira. Dor de estômago. Fraqueza. Câimbras. Irritabilidade. Dificuldades respiratórias. Salivação. Confusão mental. Convulsões. Sonolência…

Dermatites. Distúrbios hormonais. Malformações congênitas. Infertilidade. Impotência. Neuropatias. Câncer. Aborto. Problemas imunológicos. Doenças do fígado e dos rins. Doenças respiratórias. Depressão. Suicídio…

São tantos os agravos à saúde relacionáveis ao uso de agrotóxicos. E a gente nem tem noção do que ainda pode vir de doenças após tanta exposição a essas substâncias. O fato é que qualquer pessoa que vive da agricultura familiar, ou que trabalha na agricultura, ou que simplesmente mora na zona rural tem relato de intoxicação por agrotóxicos. Nas cidades, não importa a distância da zona rural, as doenças também chegam, só que com disfarces e muita maquiagem. E pouco se pensa na exposição cada dia maior a resíduos de substâncias tóxicas. Menos ainda se conhece sobre seu uso.

Você já ouviu falar em CL 50 e DL 50, IDA, LMR, EPI??? Sabe o que significam essas siglas? Sabe que a liberação de agrotóxicos é também baseada nelas? São termos desconhecidos por grande parte da população. 

CL 50 e DL 50 – Concentração Letal e Dose Letal dadas em miligramas do produto tóxico por quilo de peso corporal necessários para matar 50% dos ratos ou outros animais expostos ao produto. Quanto menor o valor, maior a toxicidade. A classificação toxicológica dos agrotóxicos é baseada nesses valores. De forma isolada. Como se no campo essas substâncias não fossem misturadas… como se cada gente ou bicho tivesse a mesma reação…

IDA – Ingestão Diária Aceitável – parâmetro de “segurança” definido como “a quantidade máxima de determinada substância que podemos ingerir por dia, durante toda a vida, de modo a não causar danos à saúde”. A quantidade máxima de ingestão permitida é medida em miligramas de agrotóxico por quilo de peso corpóreo da pessoa que o ingere (mg/kg). Quanto de agrotóxico você acha que é aceitável ingerir todos os dias? Já parou para pensar nisso?

LMR – Limite Máximo de Resíduos é a quantidade máxima de resíduos de agrotóxicos ou afins – oficialmente permitida no alimento – em decorrência da aplicação em uma cultura agrícola, expresso em miligramas do agrotóxico por quilo do alimento (mg/Kg). Além de não saber o que significa LMR, muita gente também não sabe que, no Brasil, o LMR é muito maior que em outros países. Ou seja, dentro dos valores permitidos, a gente consome água e alimentos com muito mais resíduos de agrotóxicos do que imagina. A pesquisadora da USP, Larissa Bombardi, publicou um estudo comparando o uso de agrotóxicos no Brasil e na União Europeia. Os dados são alarmantes! Hoje está morando fora do país porque sofreu ameaças…

EPI – Equipamento de Proteção Individual – esse talvez seja o termo mais conhecido. Coloquei aqui só para provocar uma reflexão. Pensem no I de Individual. A utilização de agrotóxicos no campo afeta pessoas, bichos, plantas, nossa Mãe Terra, mas a proteção é individual e exclusiva para a pessoa que está manipulando a substância. Tem uma charge que gosto muito de utilizar. Nela aparece um trabalhador no campo com seu EPI completo aplicando agrotóxico e um esquilo perguntando: “quando você vai comer, também usa isso?” 

Além do desconhecimento sobre esses termos, quando a gente busca as estatísticas sobre as intoxicações por agrotóxicos, os números são bem inferiores à realidade do nosso campo. Por que isso acontece? Nossos(as) profissionais de saúde não questionam a origem daquela dor de cabeça constante em uma pessoa que trabalha na lavoura? Não suspeitam da exposição a agrotóxicos quando algum(a) agricultor(a) desenvolve problemas neurológicos ou algum tipo de câncer? 

As intoxicações são frequentes. As subnotificações também. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que a subnotificação das intoxicações por agrotóxicos é da ordem de 1:50 para cada caso registrado” (SESA, 2018). Isso significa que, para cada número que aparece nas estatísticas, existem 50 que não aparecem.

As pessoas que estão no campo estão adoecendo e morrendo para produzir alimentos. As pessoas que trabalham no campo estão adoecendo e morrendo para produzir commodities. As pessoas que estão na cidade estão adoecendo e morrendo por consumirem alimentos com resíduos de agrotóxicos. A diferença é que quem está no campo adoece e morre mais rápido e ainda vai ser culpado(a) por não ter usado o EPI, e quem está na cidade tem a sua IDA!

Isso também não aparece nas propagandas… nem nas estatísticas…

Mas o pulso ainda pulsa… e o que eu falo ainda é pouco!

 

Fontes consultadas: 

Agrotóxicos em alimentos

Secretaria de Saúde do Estado do Paraná (SESA). Intoxicações Agudas Por Agrotóxicos. Atendimento Inicial do Paciente Intoxicado; 2018

Para saber mais: Campanha Contra os Agrotóxicos

 

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