Crônica das palavras que sumiram

Por: Kelianny Nonato

Eu escrevo porque reajo. É sempre assim: acontece algo que me toca, um grupo de palavras se formam em minha cabeça, meu coração me deixa inquieta, e pronto.

Essa ânsia, se não colocada para fora imediatamente, se transforma em uma brisa de lembranças. Se espalha pelo ar e caso eu tente juntá-la de novo será em vão. A magia que cola com sentimento as expressões não existe mais, deixou de existir. 

Aconteceu isso agora pouco. Eu estava lendo um livro e outras palavras, diferentes daquelas que estavam à minha frente, começaram a me chamar. Eu precisei vir. 

Minha relação com as palavras é muito estranha. E só consigo definir assim porque não sei como explicá-la. Começou cedo: aos cinco eu contava letras e recitava. Depois disso, uma sequência de conexões entre mim e elas começaram a existir. Aparecerem as “borboletas brancas alegres e francas”, nasceram as repetições dos nomes dos planetas e os textos facilmente decorados. As professoras impressionadas foram surgindo junto com os poemas assinados por Fernando e suas Pessoas catados nas gramáticas antigas.

Cresci sem refletir sobre isso, era apenas mais um gosto. E tão pouco usei essas relações indescritíveis para trilhar meu futuro. Mas o destino insistia. E um dia, no início de uma faculdade escolhida aleatoriamente, as palavras me acharam de novo. Saíram despretensiosas e pareciam loucas ao sair da boca de um professor elogiando um texto meu. 

Naquele dia, aí sim, comecei a refletir sobre a minha relação com a língua e com os sentimentos. Como não percebia algo tão presente que esteve em mais momentos que qualquer outro melhor amigo. Defini então que esse encontro é apenas fruto de reação. Surgiram blogs mal escritos e cursos intermináveis, mas, de alguma forma essa relação com as palavras nunca deslanchou, não saiu disso: um grande fruto do que eu sentia. Ficou meio estagnada esperando que amores e decepções me encontrassem para que eu reagisse usando a escrita. 

Segui assim, em paralelo as palavras. Algumas vezes negligenciando-as, outras usufruindo do amor e do dinheiro que elas conseguiam despertar. Mas sem estabelecer uma relação firme de fato. Se tornaram então automáticas, sem precisar de um sentimento. Até que um dia, para mim do nada, essa relação se acabou. 

Ficou apenas um oco que acompanha meu o dia a dia do trabalho, da família e dos poucos amigos. Não existe mais o que preenchia. Não há nada que faça com que ela retorne, nem as maiores dores que apareceram nesse tempo ou a ausência delas. 

Só me restou um comprimido. 

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