Não é só sobre sangue

Por: Bianca Patrícia Rosa

Na primeira vez que usei um absorvente descartável, coloquei ao contrário, o lado maior para a frente, a parte menor para trás.

Eu tinha 12 anos e, naquela época, aquele jeito fazia mais sentido.

Nessa primeira menstruação não teve muita festa e, há até pouco tempo, eu achava que queria algum tipo de celebração, mas hoje entendo que outro movimento faltava: ninguém me explicou para quê servia tudo isso.

Não adiantava só saber que, dali em diante, o meu corpo poderia formar uma vida – eu era uma criança e não estava nos meus planos engravidar. Então o que eu faço com esse sangue todo até chegar a hora? E se nem chegar essa hora? Qual é a utilidade disso tudo?
Educação menstrual, da forma como venho descobrindo, não existia no momento da minha menarca (primeira menstruação), nem na minha adolescência.

Sinto que a virada da educação e ativismo menstrual teve início com a maior difusão dos coletores menstruais aqui no Brasil. Lá em 2015, com 18 anos, eu assisti um vídeo da Jout Jout chamado “VAI DE COPINHO!”. Ela falava sobre conforto, sobre como outras mulheres tinham indicado o coletor e como estava sendo a experiência dela.

Vamos para o meu primeiro ponto: não existe escolha de verdade sem informação de qualidade. Faço parte de uma geração de mulheres que tiveram os absorventes descartáveis apresentados como única possibilidade de protetor menstrual.

O primeiro coletor foi criado em 1937.

Eu pesquisei muito depois desse vídeo.

Nas minhas buscas entendi que a grande questão do coletor acessa vários tabus ao mesmo tempo. Talvez os principais sejam, primeiro, o nojo do próprio sangue e, depois, a negação do autoconhecimento: não se fala sobre olhar e tocar na vulva, que dirá inserir dedos na vagina.

(Quantas mulheres descobriram – ou não – a sua anatomia e fontes de prazer através das mãos de terceiros?)

Naquela época entrei em um grupo de Facebook chamado “Coletores Brasil – menstrual cups” e descobri não só o mercado de copinhos, mas tópicos sobre tamanhos ideais, como medir a altura do colo do útero, flexibilidades dos materiais dos coletores, arte com sangue menstrual, desabafos (são muitos, muitos tópicos).

Eu passei quase um ano lendo, escolhendo e descobrindo que queria e podia fazer essa escolha.

De lá para cá, eu virei a “testemunha” do coletor menstrual – e um dos marcos desses meus anos de ciclicidade foi poder compartilhar conhecimentos com a minha mãe.

A descoberta desse “novo” protetor abriu espaço para outras escolhas, como usar um DIU de cobre e depois unir as calcinhas menstruais ao meu time.

Nós passamos muito anos sem inovações na área de protetores menstruais, mesmo considerando que, em um país como o Brasil, cerca de 30% da população menstrua – ou 60 milhões de pessoas, segundo a pesquisa Livre Para Menstruar (2021). E por que isso acontece?

O mercado segue sendo pautado por homens e existe um grande lucro sobre as inseguranças “femininas”.

Onde vou chegar com tudo isso? A verdade é que ainda não cheguei. Mais do que nunca, sinto que estou me conhecendo. Entendendo a mulher adulta que não foi alcançada por muitas informações e hoje pode se emancipar.

Aos 24 anos e na virada dos 25, estou construindo o repertório e entendendo o que é educação menstrual.

Descobrindo que aquele sangue todo, lá na menarca e até agora, é um sinal de saúde, do funcionamento do meu ciclo. Que os hormônios produzidos dentro da ciclicidade atuam sobre todo o meu corpo, não só na gravidez. Que as secreções que acontecem durante o mês são tão naturais

quanto a minha produção de saliva e que as calcinhas que tanto quis proteger foram feitas para manchar (obrigada, Victoria). Que o meu corpo não pode ser colocado em uma lógica de produção. Que ter acesso a mais informações seguras sobre minha anatomia e minhas opções faz parte dos meus direitos sexuais e reprodutivos.

Que educação menstrual é uma ferramenta de autonomia, de dignidade e de ação. E que ainda quero e preciso de outras novas narrativas – para mim e para todas as pessoas que menstruam.

Agradeço de coração muito cheio à Raíssa, à Victoria e à Herself Educacional, que me acolheram para fazer parte desse movimento e estão me empoderando e capacitando para transformar outras.

O que você ouviu na sua primeira menstruação?

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