A maternidade e outros demônios

Por: Dapheny Feitosa 

Assisti ao filme “Red – Crescer é uma fera” no último fim de semana como quem se expõe diante de um espelho desses que possuem dois lados, um que te amplifica e outro que te mantém de tamanho normal. Já havia lido a sinopse e sabia que se tratava da temática sobre o início da adolescência e a relação entre mãe e filha. Com o peito inflado de certezas, convidei Alice, minha filha, para assistir. Na minha imaginação, tanto eu como ela teríamos um momento de epifania que a levaria, sem sombra de dúvidas, a perceber que, agora com dez anos, ela começa a pisar em um novo terreno que pode provocar cataclismos entre nós e que ao se confrontar com esta constatação ela, subitamente, passaria a se portar da forma que eu gostaria. Era com toda certeza um plano perfeito se eu não considerasse dois aspectos: o primeiro, que esta criança, ou pré-adolescente como ela insiste, que responde da forma que eu imagino só existe na minha imaginação e, em segundo lugar, que a maternidade é sempre sobre jogar um olhar sobre si mesma. 

Com poucos minutos do filme começar, eu fui lançada diante deste espelho quando Alice me disse que a mãe da Meilin, a protagonista, tinha sérios problemas. Assim mesmo, com essa constatação fria calculista de uma mini eu que também enxerga vulnerabilidades e problemas de quem esconde. Aliás, o filme é sobre isso, sobre o que não se pode esconder. Assim como é a maternidade. Nossos medos, nossas feridas, os monstros que nos habitam e escondemos ou tentamos nos livrar são todos ressaltados naquele lado do espelho com grau que amplifica tudo até deformar. Cada parte de nós que preferiríamos que não existisse são exatamente os demônios que precisamos lidar enquanto criamos outro ser humano, porque nem a lua vermelha e o ritual mais preciso e certeiro é capaz de nos fazer prender aquilo que nos consome por inteiro, de forma lenta e devagar, por dentro. O momento de domingo com Alice foi uma epifania, mas para mim, pois mostrou-me que cada fera que habita aqui no meu íntimo e que eu não a encaro ou, pelo menos, reconheço sua existência, se transforma, ela sim, em um perigoso desastre em potencial entre eu e a pessoa que mais amo no mundo, Alice. Um filme me fez ver mais uma vez – e pergunto-me quantas mais serão preciso – que a maternidade é sobre “amor e outros demônios” e que não há fuga, é sempre bom encará-los.  

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