Benditos encontros na vida, amigas

Por: Vitória Quirino

Se existe uma coisa que é unânime em mobilizar boas lembranças e fazer girar a chave para abrir a caixa dos afetos é a palavra ‘amiga’, ‘amigo’, suas derivações e as muitas e particulares formas de se chamar, se comunicar e se entender. Uma palavra de poder para uma relação poderosa.

Quis as escolhas da vida, que eu nascesse em um lar, com pais amorosos e quatro irmãos homens e mais velhos que eu. Assim, não tive a oportunidade de saber o que é ser irmã, como é ter uma irmã ou irmãs biológicas. Talvez por isso, desde cedo, as amigas eram especiais. Inconscientemente, eu tentava descobrir como é essa relação tão única, o amor entre irmãs, através das amigas que convivia e com quem vivo cada fase da vida.

Trago comigo as memórias mais genuínas das histórias vividas com as amigas da infância. A alegria em descobrir que a melhor amiga estava na mesma sala da nova série no colégio. O compartilhar da emoção com o material escolar novo, as brincadeiras, ir para a casa das amigas fazer trabalhos, recebê-las em casa, as simples descobertas e as tantas lembranças dessa fase tão marcante. Das amigas da adolescência, entre tantas coisas, guardo as lembranças das conversas sem fim nos lugares e horários mais inadequados. Os namoros e choros sentidos no ombro daquela amiga confidente, que ouvia os foras levados dos namoradinhos ou as incertezas e inseguranças dos amores vividos. Foram muitas as diversões e as vergonhas, próprias e alheias. Íamos da ingenuidade às sábias inconsequências de quem começava a descobrir que viver é errar e acertar. As escolhas, afinidades e mudanças de algumas dessas amigas, nos distanciaram. Hoje sinto que se de alguma forma as nossas histórias se cruzaram, fomos importantes umas às outras pelo tempo necessário. Com outras, os contatos mesmo não tão frequentes devido às rotinas de cada uma, são como um mergulho no túnel do tempo, que basta um ‘se lembra de’…  para uma ou outra relembrar os detalhes das histórias, os perrengues, as farras, sempre com direito a muitas risadas, brilhos nos olhos e saudades que aguardam um próximo encontro.

As amigas da fase adulta e da meia idade são as melhores mulheres que poderiam ter “surgido” para, juntas, percorremos essa fase madura da travessia chamada vida. Algumas delas são tão diferentes de mim e eu delas em alguns aspectos, mas temos tanta semelhança em outras tantas coisas, que esse amor chamado amizade faz uma média e a conexão se dá. As amigas de hoje, antes foram colegas da formação, amigas que foram minhas professoras, amigas que foram alunas, amigas colegas de trabalho, amigas dos projetos da Universidade, amigas das práticas espirituais, amigas que o ‘acaso’ nos apresentou, amigas da amiga com direito a implicância antes de conhecer, amigas comadres, amigas cunhadas, amigas vizinhas… amigas, irmãs.

Como nas histórias de amor, guardo no coração como o início da amizade com algumas delas aconteceu. E quando penso nesses encontros, constato como a teia invisível que une as pessoas que precisam se conhecer para o crescimento mútuo é caprichoso e infalível. De forma muito especial, guardo as boas lembranças das amigas queridas que partiram precocemente e inscreveram no meu coração lições de coragem, amizade e cumplicidade. Seguimos juntas!

A relação com cada uma dessas mulheres amigas é única, diferente e complementar, sejam elas amigas desde sempre, de décadas ou de alguns poucos anos. Independentemente do tempo e muito mais pela sintonia e pela fase que cada uma está vivendo, em alguns momentos, com umas existe mais afinidade e liberdade para a escuta e acolhimento. A outra amiga é quem está precisando falar e ser compreendida. A outra é aquela com quem se pode contar pra tudo. Uma é sempre a mais sensata e otimista nas diversas situações. A outra é a dramática e que parece tá sempre pedindo por puxões de orelhas. Já a ‘sincerona’ é a que desconsidera qualquer zona de conforto e ‘tasca’ as verdades que precisam ser ditas e ouvidas. Todas necessárias.

Entre nós houve e haverá, mutuamente, desapontamentos, desgostos, raivas, algumas ‘farpas amigas’, incômodos sentidos, alguns ditos, outros relevados, impaciências, implicâncias, ciúmes… e muitas outras emoções e sentimentos presentes nas relações verdadeiras. No entanto, o que prevalece é o amor, a compreensão e o respeito ao jeito de cada uma ser. Todas as amigas juntas são como peças de um quebra-cabeças que, se fosse montado, projetaria quem eu sou nelas e quem são elas em mim. Vulnerabilidades e potencialidades, ilusões e revelações, complementariedades de mulheres amigas em desconstruções e reconstruções de si mesmas.

Sobre a complexidade da amizade, estudos das várias áreas, da Psicologia, Filosofia à Antropologia e Sociologia, aprofundam a importância das relações humanas como pilares necessários para a construção de quem somos e nos tornamos ao longo da vida, a partir das relações. No campo das tradições espirituais essa compreensão também está presente.

Para a Tradição Védica, as relações fundamentais construídas no dia a dia, com pai e mãe, professores, relacionamentos afetivos, amigos e inimigos são importantes fontes de ensinamentos para a construção do ser e para que o percurso dos caminhos escolhidos possa vir a ser bem-sucedido. O Budismo exalta o valor da “Sanga”, como dito na prece “Refúgio”: “No Buda, no Darma e na excelente assembleia da Sanga, até que eu alcance a iluminação neles eu tomo refúgio. Por meio da minha prática das seis perfeições possam todos os seres atingir o estado búdico.”  A Sanga – o grupo, a comunidade -, formada por pessoas amigas e com intenções em comum, é um dos refúgios a serem buscados nas práticas cotidianas, sendo possível exercitar as seis perfeições: ‘generosidade, ética, paciência, perseverança, concentração e sabedoria’, contribuindo para que se possa alcançar o caminho do auto-conhecimento e da lucidez.

Como dito por Martha Medeiros, “a amizade é o melhor – e provavelmente – o único antídoto contra a solidão. E não precisa ser uma amizade grandiloquente, do tipo grude 24 horas e sem segredos.”  Ser amiga e “ter amigas de infância, amiga irmã, amigo homem, amigo gay, amigos virtuais, amigos inteligentes, amigos engraçados, amigos que não cobram, que não são rancorosos, amigos gentis, amigos que se mantêm amigos na distância e no silêncio, todos eles ajudam a formar nossa identidade e a nos sentir protegidos nesta sociedade cada vez mais bruta e individualista.”

É a partir da amizade que há a nutrição e a doação das diferentes formas de amor, afeto, pertencimento, compreensão, acolhimento e partilha. As amigas e amigos são as companhias perfeitas para a travessia de todas as fases, da infância à velhice, com as respectivas necessidades e importâncias. Nas trilhas suaves ou íngremes, prazerosas ou dolorosas que são percorridas durante a vida, a amizade molda individual e coletivamente, através da convivência e das histórias escritas em conjunto, quem se é e quem se pretende vir a ser.

 

 

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