A Filha Perdida

Por: Yane Diniz 

Aos primeiros dias de 2022 estive doente, estou doente, estamos doentes. Eu e metade dos brasileiros fomos surpreendidos com uma gripe, ainda que as primeiras suspeitas fossem de uma terrível ressaca desse desgoverno. 

Não sei se o direito de adoecer foi negado às mães, mas sempre me parece bem mais difícil estar de cama daqui de onde falo, dessa maternidade tantas vezes sufocante. Das prescrições para retomar a saúde, repouso, bons livros e filmes me foram recomendados. Como fosse possível repousar, como fosse possível adoecer e não pensar, como fosse possível estar isolada sendo mulher e mãe.

Aos primeiros dias de 2022 estreou A FILHA PERDIDA e aqui de dentro desse quarto, em situação de silêncio, pude reavaliar as várias faces e disfarces da maternidade. A adaptação do romance de Elena Ferrante – que eu nunca li – por Maggie Gyllenhaal é denso em cada sutileza, em todo toque de maternar que foge aos padrões e mais ainda quando confronta os modos de ser mãe nos núcleos que se apresentam a cada cena. 

Olivia Colman, na persona Leda, desperta lágrimas e angústia. Um aperto no coração a cada lembrança dos seus tempos de mãe, descosturando na gente qualquer coisa bem amarrada de conforto por estarmos seguindo o manual de boas práticas maternas. 

É incômodo falar “dos seus tempos de mãe”, perceba como você sentiu certa inquietude com a força dos termos,  pois comum é privar toda mulher que bota um filho no mundo de uma condição temporária. Ser mãe é eterno e é bonito castigar a mulher nessa permanência do título. 

As filhas de Leda são crescidas, mas ela não esquece o quão dolorosa são as renúncias de uma vida quando a gente escolhe  – ou não escolhe e a vida manda mesmo assim – ser mãe. 

Carol Burgo [@carolburgo] falou recentemente sobre o filme, afirmando que o drama a autorizou dizer com toda a força de sua voz que a maternidade é um trauma, mas que traumas são apenas rupturas em nosso destino de gente, não necessariamente algo ruim. É impossível desenrolar o enredo de Leda em suas férias tranquilas sem memorar todas as cisões que o ser mãe trouxe para nossas tramas pessoais femininas. 

Não como crítica de cinema – um dos possíveis sonhos que deixei pra trás ao encarar a maternidade – mas com a autonomia materna que que faz repensar posturas de vida há alguns anos, venho aqui desenvolver alguns pontos de reflexão que A FILHA PERDIDA me trouxe. [pode conter spoilers, leia por sua conta e risco]

  • Leda tira férias sozinha, e uma mulher sozinha incomoda muita gente. Uma mulher sozinha na praia com seus discos e livros e nada mais é motivo de ameaças e olhares em torno do que se passou em sua vida, de suas escolhas profissionais, sexualidade, idade e personalidade. Leda está sozinha com sua paz quando uma família grande e barulhenta, abusiva entre os seus e os outros, invade nossa praia nos fazendo questionar as relações familiares e a opção de ser e estar distante do padrão normativo social. 
  • Parece pouco questionável quando a escolha de ser só é masculina. No filme, dois coadjuvantes pouco expressivos falam tranquilamente do abandono familiar, de deixar o ninho em busca de sonhos e desejos. Em nenhum momento o abandono paterno é causa de nó na garganta e aperto no coração, visto que foi naturalizado em nossa cultura e estruturas de liberdade patriarcal. No entanto, a mãe que deixar a casa é um ato monstruoso, criminoso e sem coração. [contém ironia]
  • Uma mulher é intelectualmente tão capaz quanto um homem, mas o peso da família recai sobre ela, bem como o cansaço e a exaustão mental. Leda jovem e seu companheiro estão juntos na missão de criar duas crianças para o mundo, no entanto é a Leda jovem que renuncia seu momento de trabalho para “dar conta” de uma birra qualquer enquanto o companheiro está em uma ligação importante. A ligação telefônica masculina mais importante é proporcional à importância que damos à ligação emocional feminina da mãe que nega um beijinho no dodói. 
  • Existe uma tensão entre Leda e Nina. Um desejo que margeia o sexual mas nasce do reconhecimento entre as partes. O encontro entre os arquétipos da mulher selvagem: anciã e a jovem. Sentimos em Leda o peso da dúvida de ser boa ou má, sendo o silêncio e a observação o meio termo entre aconselhar ou deixar que a vida de Nina siga seu curso. Leda cala, sábia de que não é possível traçar um mapa do tesouro materno e desviar das minas cotidianas que explodem nessa vida. 
  • Ainda existe desejo em Leda. Ainda existe desejo em todas nós. Ele acontece quando a gente se encontra do lado de dentro e recebe os méritos de ser quem se é, como se é, bem assim do nosso jeitinho, reconhecendo nossos grandes feitos para além das tarefas domésticas. No filme, as águas de Leda são despertadas em desejo quando ela é reconhecida em sua profissão e é citada por um desses mestres semi-deuses revelados em homem branco barbudo acadêmico. A reflexão é que uma mulher calejada de maternidade é despertada não pelo príncipe encantado, mas pela sua potência intelectual. Fiquei bastante incomodada com a fragilidade desse encanto nas cenas de libertação. Mas na vida real a gente não precisa que nenhum homem valide nossa genialidade para reconhecer nosso potencial enquanto mulheres muito maravilhosas, ok?
  • O Oscar de melhor atriz – além da Olivia Colman e Dakota Johnson – vai para a boneca. Estou muito curiosa para degustar os livros da Elena Ferrante, mas leiga na narrativa que sou, atrevo-me a entender a boneca como objeto representativo da mulher em suas vidas possíveis. O feminino taxado como dependente de cuidados, causa de todo mal do mundo e toda confusão. A mulher que se perdeu e a mulher reencontrada, impura por dentro, suja, doente, cuidada e zelada por Leda – aquela violada por Zeus em cisne que gerou toda a humanidade – a mãe desnaturada, a filha perdida. 
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