Crônica do livro Para Alice ler

Por: Dapheny Leandro em crônica do livro Para Alice ler, publicado pela Editora Tagore, em colaboração ao Nossa Fala

Rolou uma pequena lágrima do tamanho do peso do mundo quando a médica me disse é uma menina. Ficou tão claro para mim o quanto seria difícil, Alice. Ou seria uma vida de olhos abertos e muito cansaço de luta ou uma vida de olhos fechados vivendo no ópio das que não querem sentir, saber ou pensar, mas que possuem a petulância dos ignorantes. Ou compreendemos nossa situação neste mundo de homens, feito por homens, com leis criadas por eles, religiões divulgadas por eles, ou entendemos que só temos nossa voz e é preciso gritar muito para ser ouvida.

Provavelmente, você se tornará alguém como eu, pronta para o debate ou embate, pronta para escancarar velhas posições, questionar o que até então era inquestionável, ou talvez, e acho isso bem possível, você buscará, talvez só por um tempo, ser diferente de mim. Você pode fazer isso. Já são tantos direitos conquistados. Voto. Trabalho. Universidade. Divórcio. Pílula. Faça uso disso. Você só não pode ser a mulher que usufruirá de direitos conquistados a duras penas e dizer, orgulhosa, que não é feminista. Ser feminista é lutar pelo direito de existir como você quiser. Dona de casa? Ok. Bióloga marinha? Ok. Mãe? Ok. Sem filhos? Ok. Mas só não finja saber que essas escolhas surgiram do nada no seu colo. Não feche os olhos para o fato que, até hoje, o absurdo acontece com mulheres como eu, com mulheres como você será. E até com meninas. Seja tudo, Alice. Seja tudo que quiser. É o que desejo sempre. Seja inclusive o que não concordo ou o que não pensei para você. Só não seja ingrata. Só não finja não saber que, por trás de cada escolha sua, por mais inocente que lhe pareça, existiu uma mulher que ousou ser feminista.

Tags:

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS POSTAGENS

Menu