Convivência

Por: Gabs Ferrera

18 de setembro de 2021, sábado, 15:30. Até então, mais um fim de semana normal como qualquer outro, até que recebemos um convite para o aniversário de uma amiga querida.

Êpa, quem “recebemos”? Calma, me refiro a mim, Bruna, e ao meu marido, Gustavo. Já fazia um bom tempo que não saíamos de casa, então aquele convite foi topado mais rápido que o seu envio.

Costumo dizer que eu e o Gustavo temos bastante afinidade e compartilhamos das mesmas frustrações, afinal, nenhum sentimento aproxima mais as pessoas que a “dor”. Nós somos tímidos e ultimamente eu tenho me desafiado a, literalmente, “abrir a boca” na rodinha dos amigos – um passo que para o Gu ainda é difícil. O aniversário da nossa amiga seria às 21h, num barzinho perto da nossa casa, o que foi perfeito. Nos arrumamos, pedimos o Uber e fomos.

A gente estava especialmente mais apaixonados nesse dia! Acho que por conta da minha recente volta do Rio Grande do Sul – viagem à trabalho. Foram 7 longos dias sem nos vermos e, como todo casal, a saudade acumulada transborda em muito aconchego. Fomos os primeiros a chegar no barzinho e tratamos de pedir nosso petisco preferido: carne de sol com fritas, acompanhado de uma cerveja bem gelada. As pessoas foram chegando logo após, cerca de 7 convidados, e todos fomos nos divertindo noite adentro, conversando sobre nossas vidas.

Em um dado momento do encontro um dos convidados foi embora, disponibilizando um lugar mais próximo do grupão. Percebi que o Gu estava um tanto que deslocado na conversa, especialmente por estar afastado. Ele é o tipo de pessoa que sempre acha que está incomodando, ou que vai incomodar (um estigma que o acompanha desde a infância, pois ele fora uma criança muito inconveniente, sempre fazendo brincadeiras que passavam dos limites, sendo repreendido por isso). Ele se tornou um cara que só vai pra qualquer coisa quando é convidado. Só faz qualquer coisa quando é convencido de que o querem ali. Ele precisa sentir que tem a permissão para conversar. Pensando nisso, perguntei – discretamente – se ele gostaria de sentar um pouco mais próximo do resto de nós, facilitando a interação. Obviamente ele negou e assim seguimos, tudo bem, tudo tranquilo. O problema foi o depois – as pessoas não conhecem o Gustavo como EU conheço. Elas não sabem que pra ele não é tão simples assim interagir por muito tempo, logo elas associam o seu jeito mais “afastado” a algum problema, chateação ou qualquer outra coisa preocupante, quando na verdade é o jeito dele (que tem uma origem). Então, um tempo depois – de uma forma mais aberta e direta – um amigo nosso o chamou na frente de todos para mudar de assento e se aproximar da conversação, sendo que esse amigo estava mais afastado, impedindo que o Gu o ouvisse claramente:

– Ei, Gustavo! Vem mais pra cá, pô! Ta aí tão sozinho… – disse nosso amigo.

– O quê? – respondeu Gustavo, sem ouvir nada e me olhando, esperando algum sinal na minha face para facilitar a interpretação.

– Tô dizendo pra você vir mais pra cá… – repetiu nosso amigo.

– Kkkkkk… não tô entendendo – falou o Gu, achando graça da situação.

Nessa hora o nosso amigo me olhou com um olhar de “fala pra ele o que eu tô dizendo pelo amor kkkk” e eu atendi. Eu já sabia a resposta, mas não queria falar por ele e afastá-lo ainda mais da conversa, ou até possivelmente chateá-lo de alguma forma por não deixá-lo saber o que foi dito. Então falei pro Gu que nosso amigo estava chamando-o para se aproximar da conversa:

– Ele tá te chamando pra ir mais pra lá – falei, fazendo uma cara de “eu sei que você não vai, tô só falando o que ele disse”.

E então veio uma reação que NINGUÉM estava esperando e causou tudo que o Gustavo não estava buscando – a atenção de todos:

– PORRA, EU JÁ FALEI QUE EU NÃO QUERO SAIR DAQUI! – disse ele esbravejando e ao mesmo tempo notando que não foi eu que estava insistindo no assunto, foi outra pessoa.

– Eu tô bem aqui, sério… – nesse momento desceu o tom de voz, percebendo que havia se exaltado além da conta.

Nosso amigo ficou desconcertado, mas tentou não levar para o pessoal, ao mesmo tempo que o Gustavo tentou verbalizar um pedido de desculpas. Nessa hora, eu só pensava no quanto ele devia estar puto consigo mesmo por ter deixado essa parte de si tão visível, transparente, disponível e tangível para todo mundo ver. Ele escolheu se acovardar na própria insegurança, o que é natural. Achava – no auge da minha ingenuidade – que ele pediria desculpas ao nosso amigo, explicaria que ficava mais confortável onde estava e que se irritou porque é uma pergunta comum na sua vida pessoal. Mas, para minha surpresa, ele ME RESPONSABILIZOU pelo seu ato de agressividade:

– Véi, não é coisa com você não, Bruna já tava me enchendo o saco com isso… – disse ele, basicamente dizendo “gritei contigo mas a culpa é dela”, procurando um buraco no chão pra enterrar a cabeça e querendo que eu limpasse a bagunça.

A noite no barzinho seguiu, mas não preciso nem falar sobre o comportamento do Gustavo, né? Com vergonha (óbvio) pelo grito que deu, ele ficou ainda mais introvertido, em silêncio total. Quando tentei interagir pra saber o nível de chateação que ele estava sentindo, não fui correspondida mais como antes. “Sobrou pra mim” – pensei. Mas será? Não pode ser, né?

Um tempo depois, uma amiga nossa fez novamente o mesmo pedido “vem pra cá, Gustavo…” (tenho pra mim que ela perdeu essa parte tensa do encontro). Dessa vez ele só negou com a cabeça, continuando em silêncio.

Na despedida, os convidados foram abraçá-lo antes de ir, incluindo a aniversariante. Lembro que ela disse algo sobre ter gostado dele ter ido, que foi muito bom e tal, mas ele não disse absolutamente nada, direcionando seu olhar para o chão. Pedi o Uber e nos direcionamos para a porta do barzinho, ele na frente em disparada e eu atrás. No carro, tentei puxar assunto falando sobre investimentos na bolsa de valores (kkkkkk), eu só queria aliviar a tensão e facilitar o diálogo. Em vão. Chegando em casa, ele tomou banho, digitou algo bem longo no celular por bastante tempo e foi dormir, virado pro outro lado da cama.

No dia seguinte, o nosso domingo – que deveria ser de Netflix e afins – foi um silêncio. Eu confesso que dormi jurando que ele só precisava digerir tudo e que no outro dia acordaria melhor e desabafaria sobre. Mas não. Por alguma razão ele escolheu me punir. Em algum lugar da cabeça dele, eu fui responsável pelo seu comportamento – o que não faz sentido. Tá mais do que claro que existe uma questão muito mais profunda entre ele e esse problema, algo que vai além de mim, do meu amigo e minha amiga. Um casal maduro conversaria sobre ou, no mínimo, a pessoa chateada diria “não tô bem depois de ontem, não reagi dessa forma por mal, tenho questões sobre isso e preciso refletir sobre, conversamos depois”. Mas não foi isso que ele fez. Ele não disse nada, ficou em outro cômodo da casa o dia todo – literalmente. Nós sempre fazemos as refeições juntos, assistindo TV, mas ele optou por comer na cozinha, sozinho. Tentei falar com ele, agi normalmente, na esperança de que isso pudesse mostrar que eu – apesar de tudo – não estava magoada e estava ali para ouvi-lo, mas ele continuou indiferente, ouvindo algumas perguntas minhas de rotina e respondendo apenas o que quis responder, sempre de forma ríspida e fria:

– O almoço tá pronto! Vamos assistir algo?

– … – permaneceu em silêncio, comendo na cozinha.

– Você quer algum delivery?

– Não. – disse ele.

– Vou no mercado, quer alguma coisa?

– Não. – novamente uma resposta curta.

São exatamente 02:47 da madrugada da segunda. Daqui a poucas horas vou começar a trabalhar, assim como ele. Escrevo essas palavras enquanto o observo dormir, tentando compreende-lo, procurando na transcrição dos fatos uma justificativa para ser maltratada o dia todo, quando tudo que fiz foi tentar dar espaço a ele, apesar de morarmos 24h juntos.

Não consigo dormir. Não pela situação em si, mas por saber que mesmo adotando uma postura empática, madura e respeitosa, dando tempo para que ele refletisse sobre o que houve e pedisse desculpas, até o momento (e muito provavelmente pelos próximos dias), nossa rotina vai ser essa: silêncio, mudança de cômodo, dormir pro outro lado da cama.

O que ele está esperando? O que de tão grave eu fiz para receber esse tratamento? Por qual motivo estou sendo punida com indiferença? Em que universo eu devo ser responsabilizada pela agressividade de outra pessoa? Por qual razão eu não mereço ser respondida com honestidade e maturidade, se dei espaço e tempo?

Estou aqui refletindo se devo chamá-lo para conversar e se isso será lido por ele como uma invasão de espaço. Eu não quero isso! Não fiquei 24h sendo evitada e ignorada a esse ponto, para depois ser lida como invasiva. Mas também tô com medo de ser vista como fria – uma pessoa que sabendo de tudo isso, conhecendo o Gustavo, até agora não tocou no assunto. Mas será que está certo EU fazer isso? Não sei.

Só sei que eu não queria me sentir culpada por uma coisa que não fiz. 

A gente geralmente adota uma postura, para atingir um objetivo x. Queria saber o que ele objetiva, agindo dessa forma comigo… 

Não sei como terminar esse desabafo, até porque nada terminou. Ainda. 

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