Ode aos fins

Por: Erirly Ricarte, colaboradora do Nossa Fala

Em exatamente cinco minutos o dia de hoje chegará ao fim. Os ponteiros do relógio, sempre apressados, vão coincidir e unir-se por alguns segundos na metade superior daquela circunferência implacável, que agora mesmo está suspensa na parede do meu quarto. Como resultado de um acordo universal, o dia vinte e seis de novembro de dois mil e vinte e um se perderá para sempre nos registros da história. Fini.

Não é engraçado? Muitos de nós sequer damos importância a este fim irrecuperável que a noite nos traz. Na verdade, é possível que a maior parte estivesse ansiando fervorosamente por que este dia acabasse. Somos tão indiferentes a alguns fins, mas ainda assim, outros parecem dilacerar com uma impetuosidade apática a nossa disposição para encarar a cruel continuidade da vida.

Talvez o fim só exponha sua natureza angustiante quando dele se resulta uma possível se-pa-ra-ção. É aí quando ele se revela de fato potente, imediato e, por vezes, até insensível.

O nosso primeiro contato consciente com este tipo de fim normalmente acontece com a separação de um amigo de classe, lembra? Seus pais anunciaram, sem indagar, que seria necessário trocar de escola. E, assim, do nada, o contato diário com o melhor parceiro de pique-esconde no recreio se é extirpado a esperançosos encontros no fim de semana que, na verdade, nunca vão acontecer. E que dor! Porém, quantos mais dias se anunciam depois da cruel separação, menos insuportável aquela ideia nos parece. A gente cresce em torno da ausência, até que ela se torna pequena demais para atrapalhar o percurso dos nossos dias. Então, nos acostumamos.

Depois, vem talvez um dos mais dolorosos contatos com o fim. Ele geralmente se apresenta após trocas silenciosas e prolongadas de olhares. Olhares que dialogam conversas intraduzíveis ao vocabulário literário humano. E boom! De repente, se formou a junção mais problemática do roteiro emocional de nossas vidas: duas pessoas se apaixonam. Juntam os lábios e, enquanto partilham suas salivas, deixam que a vida entre… Na sua forma mais doce, intensa, e otimista. Até que, acaba. Simplesmente. O amor acaba. Por vezes, só aquele sentido por uma das partes. E o outro se vê obrigado a juntar tudo o que sente e jogar… fora. O fim se anunciou. Mas ele passa, ao menos, em sua condição penosamente latente. E dá espaço para muitos e muitos outros tipos similares de fins.

Mas e o terceiro? Ele traz consigo flores fúnebres. Este, ah, é mesmo implacável e cruel. É o fim causado pelo adeus eterno. Como é possível que alguém com quem partilhamos tantos momentos, agora esteja ali, imóvel, incomunicável? A dor de saber que, a partir de agora, aquela imagem irá desvanecer para sempre do mundo material. Perder alguém para vida dói tanto, mas como é dilacerante perdê-la para a morte! E exatamente aí, somos apresentados a um dos pontos mais injustos e incompreensíveis da existência. Não há religião, filosofia, otimismo e nem abraços que nos dêem razões suficientemente saciáveis para explicar essa descontinuação atroz. Mas confortam. E o tempo também conforta. A saudade faz com que aquela imagem ressurja para sempre em um outro mundo: o da lembrança. Onde tudo é possível e onde o fim, por mais potente e implacável, simplesmente não alcança.

Mas o engraçado é que, ainda que extremamente dolorosos, nenhum desses fins terminam num mero fim. Afinal, tudo acaba sim, mas nunca se transforma em simples nada. O fim sempre precede algo novo. Se pensarmos bem, os fins são apenas prenúncios do recomeço. Um novo amor, uma nova amizade, uma nova forma de mantermos presentes a quem amamos. De fins em fins, fazemos a vida. Até que ela mesma se consuma e tudo não passe de uma póstuma ode ao que já não existe mais.

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