Profissão versus realização

Por: Marcela Quirino

Guardo comigo pouquíssimas lembranças dos meus tempos de ensino médio, certamente porque naquele tempo eu achava que estava vivendo a pior fase da minha vida. Dentre essas poucas memórias, lembro do dia em que saiu o resultado de uma das provas de vestibular que eu tinha feito, o dia em que eu vi meu nome classificado no 8º lugar do curso de Arte e Mídia da UFCG. Se eu já estava feliz com aquela conquista, a alegria foi ainda maior quando a notícia chegou até minha família, que ficou toda orgulhosa desta jovem vestibulanda. Repare bem: não era o 1º, 2º ou 3º lugar. Não era um curso requisitado como Medicina ou Direito. Eu tinha sido aprovada em Arte e Mídia e todos me parabenizavam como se eu tivesse sido premiada em Cannes.

Falar de vestibular é falar de família, não tem pra onde correr. A adolescência como um todo, na verdade, é um período completamente ligado às expectativas de quem está ao nosso redor. É aquele momento decisivo em que é preciso provar pra todo mundo que você está suficientemente preparado para adentrar a vida adulta. É hora de mostrar todo o seu talento, competência e maturidade, mesmo que você ainda não tenha desenvolvido nenhum dos três. Sim, é difícil. Se toda essa pressão foi pesada pra mim, que tinha o apoio de uma família que compreendia minha personalidade e abraçava as minhas escolhas, não consigo nem imaginar o que sente alguém que se vê na obrigação de ser o que não é pela “simples” cobrança de realizar os sonhos frustrados de seus pais. Que o digam aqueles médicos rabugentos que atendem a gente na força do ódio em uma consulta mal feita que não dura 5 minutos. Dá até pra ler em suas testas: não era isso que eu queria pra minha vida.

Que fique bem claro que essa crítica não é direcionada àqueles pais que orientam ou até questionam as escolhas profissionais dos filhos. O desejo de ver aquela pessoa que você tanto ama se dando bem na vida é algo realmente bonito e legítimo, o que não é nem um pouco legal é impor algo que seja importante para você, mas não para o outro. Algo que vai realizar os seus anseios, mas, ao mesmo tempo, condenar a outra pessoa à infelicidade. E é nesse momento que o adolescente sente aquela que talvez seja a sua primeira grande crise existencial: como conciliar os meus sonhos com os da minha família? Essa decisão é genuinamente minha ou foi influenciada por fatores externos? Como priorizar minhas escolhas sem decepcionar as pessoas que eu amo? Bom, meu conselho é: primeiro você senta, depois você chora, e, por fim, você percebe que existe uma luz no fim do túnel.

Sim, existe algo de positivo em todo esse rolê: o fato de que nada precisa ser permanente. O mercado de trabalho é instável, cíclico, rotativo. O que antes eram grandes profissões acabaram entrando em extinção, assim como atividades que há uma década nem sequer existiam são, hoje, fontes de rendas milionárias. Além disso, nós, enquanto seres mutantes, carregamos o superpoder da reinvenção. Não se encontrou na faculdade? Sempre é tempo de começar outro curso. Não tá realizado profissionalmente? Nunca é tarde pra procurar algo novo. É um tanto cruel querer que alguém aos 18 anos seja capaz de definir uma profissão para a vida inteira. Você até pode fazer essa escolha, mas não precisa se agarrar a ela como algo definitivo. O advogado de hoje pode ser o artista plástico de amanhã, e isso também é uma carreira de sucesso.

Conquistas profissionais, sobretudo para quem vive as consequências de uma sociedade tão desigual, são vitórias inquestionáveis. Construir uma carreira é extremamente importante, desde que ela não anule a sua essência nem te leve na contramão do caminho que você desejava trilhar. Lembra que profissões existem muitas, mas vida só há uma.

Tags:

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS POSTAGENS

Menu