O que resta de nós quando um amigo vai embora

Por: Kelianny Nonato

Se despedir para sempre de um amigo querido não é a mesma coisa que ver um familiar partir. Existe algo que separa as duas tristezas de forma perpendicular, nascendo de lugares bem diferentes mas se unindo no luto.

Quando alguém da família morre, é como se estivéssemos mais sozinhos no mundo, desamparados e com menos gente para ajudar. É como se você voltasse a ser criança de novo e estivesse perdido em meio a uma multidão de pessoas. E você olha por todos os lados, checa todos os rostos e não vê ninguém conhecido. Porque nessa hora, de alguma maneira, os seus outros familiares também estarão perdidos em meio a suas multidões e também procuram um rosto conhecido para não se sentirem tão desamparados. Mas ninguém se reconhece.

Quando um amigo morre é bem diferente, você é uma das pessoas daquela multidão. Olha em volta, reconhece as pessoas, mas sente que ninguém te enxerga. A você, resta procurar alguém que esteja perdido para que essa pessoa te reconheça e você possa ajudá-la.  É como se você fosse apagada e uma parte da sua vida fosse embora junto com aquele seu camarada.

Quando eu tinha 15 anos, entrei numa dessas multidões de pessoas parcialmente apagadas depois que um amigo se foi. Entrei e vi rostos conhecidos, sabia quem era cada uma das pessoas que choravam e reconhecia ao longe os outros que naquele dia também perderam um pouco de si. Eu só não me conhecia, perdi o colorido, histórias e sorrisos.

Estava cinza, como as meias com que meu amigo foi enterrado. Com ele também foram várias manhã de sábado gastas na calçada de casa, aulas intermináveis no fundo da sala, matérias escritas no meu caderno da 8ª série com a letra de outra pessoa (a dele) e a minha lista de “pecados” feitas em conjunto antes da confissão da Crisma. Nada disso que era meu existe mais. Deixaram de existir no mesmo dia que meu amigo se foi. Se apagaram, porque essa história não é mais sobre mim.

O protagonista foi embora e quem estava mais ao seu lado, que eu, estava perdido na multidão sem reconhecer ninguém. Eu acordei no dia do enterro e pensei que não podia me dar ao luxo de ficar na cama, precisava me despedir do meu amigo e de uma parte de mim que a partir dali não existiria mais.

Queria que quando voltasse para casa, pudesse reviver as alegrias que tivemos, mas ele não estaria mais ali. Só me restava ajudar aos perdidos que ficaram. Eu não me perdi, sabia exatamente quem eram os outros.

Só não sabia mais quem era eu. É assim, que no meio da multidão de pessoas que não são mais as mesmas, eu encontro com vocês agora, Maiara & Maraisa.

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