A indignação minha de todos os dias

Por: Shirleyde Santos

O que será que os seus filhos acharão de vocês, diante de um legado tão nefastoVocês que fazem das fazendas hoje um grande deserto verde só de soja, cana ou pasto?” (Carlos Renó/Chico César)

Quanto mais eu pesquiso… Quanto mais eu conheço… Quanto mais eu vejo… Quanto mais eu escuto relatos de quem está no campo, mais eu questiono: como alguém pode defender um projeto desses? E lembro com frequência da letra de Reis do Agronegócio, de Carlos Renó e Chico César… O que será que os(as) filhos(as) dessa gente vão pensar quando perceberem a herança nefasta que herdaram?

Jostein Gaarder, escritor norueguês, tem um livro que provoca uma reflexão sobre o que estamos fazendo: Anna e o planeta. A história de Anna se cruza com a de sua bisneta em sonhos. O principal questionamento do livro é bem parecido com o trecho da música que citei, não só pela indignação de Nora, bisneta de Anna, como pelo olhar de Anna para o presente, para a necessidade de ação que possa minimizar os danos que causamos ao planeta.

Temos acesso a tantas informações, mas jogar lixo na praia, por exemplo, ainda é algo tão banal para tanta gente. Na verdade, tem certos hábitos que são repetidos naturalmente, sem o menor esforço de reflexão… Talvez, por isso, as fake news fazem tanto sucesso em nosso país. Inclusive, a capacidade humana de distorcer histórias é algo que deveria ser bem estudado.

Um país que intoxica o campo diariamente usando o argumento de “acabar” com a fome, mas acaba mesmo é com todas as formas de vida possíveis e deixa um rastro de destruição. Não precisa ir longe pra ver. Em alguns casos, basta abrir a porta ou a janela ou, simplesmente, os olhos.

Desde que comecei a estudar as relações entre o uso de agrotóxicos e diversos tipos de adoecimentos, já vivenciei diversas situações e a minha capacidade de me indignar só aumenta. Eu não consigo banalizar o sofrimento e não me esforço pra isso. Quero gritar até quando tiver voz que AGROTÓXICO MATA! Que as pessoas que trabalham no campo estão se expondo de uma forma muito perversa, porque a elas é negado o direito de saber, de escolher, de se prevenir… São tantos direitos negados que poderia escrever horas…

E quem se importa? Muita gente se contenta com o fato de ter comida na mesa, não importando se alguém está adoecendo para produzir essa comida. E quem ganha? Donos de terra que certamente não pisam em suas propriedades quando o veneno está no ar. E quem sofre? Homens, mulheres, crianças. A riqueza do AGRO é para poucas pessoas, mas o sofrimento provocado é democrático e chega a todos(as)!

Em pleno Outubro Rosa, quantas matérias você viu ou leu sobre uma provável relação entre câncer de mama e exposição a agrotóxicos? No sudoeste do Paraná, o curso de Medicina da Universidade Estadual do Oeste (Unioeste), Campus de Francisco Beltrão, em parceria com o Hospital do Câncer (CEONC) e o Instituto Nacional do Câncer (INCA), está fazendo um mapeamento sobre a relação da exposição ocupacional aos agrotóxicos e o desenvolvimento de câncer de mama.  A coordenadora do projeto, Carolina Panis, relata que o câncer de mama em mulheres agricultoras é mais agressivo, um dos motivos é o contato mais próximo com os agrotóxicos.

Dos relatos da pesquisadora, destacamos algumas situações:

“Cabe às mulheres preparar a substância e dar suporte ao marido e aos filhos, que geralmente assumem a tarefa da pulverização”.

“A mulher pega o potinho onde está o agrotóxico sem luva, sem EPI nenhum. Nosso levantamento mostrou que 94% dessas mulheres se expõem dessa forma: preparando esse ativo para o filho ou o marido aplicar, ou ainda lavando as roupas”.

“Elas colocam a roupa que o homem trabalhou o dia inteiro dentro da máquina de lavar junto com a roupa do bebê, junto com a toalha de banho. Então, a família toda é exposta”.

Recentemente, aqui na Paraíba, em contato com um trabalhador rural responsável pela pulverização de agrotóxicos, questionei sobre o uso de EPI e ele mal soube responder quais os equipamentos utilizava. Em seguida, perguntei sobre a lavagem do EPI, ele de pronto respondeu que a mulher lavava. Ainda perguntei se ela usava alguma proteção para lavar o EPI e ele respondeu tranquilamente que ela colocava na máquina de lavar…

Conheci a mulher e os dois filhos pequenos e fiquei imaginando o quanto aquela família já é impactada e quais doenças poderão desenvolver num futuro não tão distante…

Impossível não me indignar!

Espero que esse texto, além de provocar indignação, provoque mudanças!

“Mas até hoje na verdade nunca houve um desenvolvimento tão destrutivista. O que diz aquele que vocês não ouvem, o cientista, essa voz, a da ciência, tampouco a voz da consciência os comove. Vocês só ouvem algo por conveniência.” (Carlos Renó/Chico César)


Para
conhecer mais sobre a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela vida: https://contraosagrotoxicosr.org

Referências:

https://contraosagrotoxicos.org/outubro-rosa-conheca-relacao-entre-agrotoxicos-e-o-cancer-que-mais-mata-mulheres-no-brasil/

https://www.unioeste.br/portal/central-de-noticias/57042-unioeste-mapeia-relacao-de-cancer-de-mama-com-agrotoxico

https://www.letras.mus.br/chico-cesar/reis-do-agronegocio/

Tags:

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS POSTAGENS

Menu