Com 10 anos a gente já aprende a sobreviver

Por: Dani Fechine

Quando eu tinha meus 10 anos, a minha preocupação era se daria tempo chegar da escola, fazer a tarefa, jantar e ir brincar de bola na rua. Na dúvida, eu já adiantava as tarefas da escola no colégio mesmo. Chegava em casa pronta para a brincadeira. A única escolha que eu precisava fazer era coletiva: baleado, pega-pega, dono da rua ou vôlei? Do que vamos brincar?

Eu me apaixonava pelo coleguinha da sala, mas não deixava ele saber. Estudava e prestava muita atenção na aula porque tinha o velho sonho de criança de ser alguma coisa quando crescesse, mas ainda nem sabia o que. Um dia eu queria fazer música, no outro eu já estava decidido a ser arquiteta. Ou jogadora de futebol? 

Era uma época em que eu amava as festas de família, conversar besteira, rir, comer. Adorava quando tinha aniversários, coxinhas, bolo e ainda mais tempo para brincar. O São João era o meu momento preferido, porque ali além de ser criança, vestia uma roupa colorida que transparecia no corpo a alegria que eu sentia por dentro. Se eu pensasse em pular uma fogueira, como dizem quando a gente escapa de um problema grande, era só a do São João que eu me recordaria.

Naquela idade, sexo era coisa de adulto. Beijo na TV era para me fazer passar vergonha na frente de quem estivesse assistindo na sala. Criança só brincava e estudava. 

Hoje, com dez anos, você não pode confiar nem nos próprios homens que estão dentro de casa. Viver com dez anos hoje em dia é começar a acender o estado de alerta para o mundo. Se você for uma menina, a antena já precisa estar levantada bem antes.

Não é da criança precisar se preocupar. Mas hoje ela tem medo até do tio da escola, que antes era um amigo que ajudava quando a bola caía em cima do telhado da quadra. Hoje, potencial agressor. 

Há quase dois meses uma criança de 11 anos chamada Anielle Teixeira desapareceu de perto da mãe. Após três dias ela foi encontrada morta e o suspeito do crime confessou tudo. Matou por matar. É que hoje basta ser mulher. Ou melhor, basta ser menina. A misoginia cresce de uma forma desenfreada. Ódio ao não, ódio ao corpo, ódio ao ser humano mulher. 

Na escola nos ensinam tanta coisa. Tantas brincadeiras. Um universo de conhecimento que a gente leva pra vida toda. É lá que a gente entende que criança foi feita pra brincar e estudar. Mas não nos ensinam a sobreviver. Quando eu tinha lá pelos meus 10 anos, ninguém me disse pra não confiar em ninguém. Aprendi sobrevivendo. 

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