A dentística da perda

Por: Taynã Olimpia, colaboradora do Nossa Fala

Já quebrou um dente? Eu já, e mais de uma vez. Na primeira, só ficou um pouco pontiagudo, e logo ressignifiquei, dizendo que agora serviria como proteção. Um novo canino, para rasgar o que me invade. Mas a quebra desta vez foi pior, ficou um buraco. Curioso, porque nem senti, nem fez barulho; só estava lá comendo meu almoço e engoli tudo junto, a comida e o taco do dente. Copo de suco, glup, desceu. Sem me dar conta.

Quem me avisou da ausência daquela pedaço foi a língua, que vigilante sentiu algo diferente em sua morada. Vasculhei com ela e constatei: realmente, não estava mais lá. Olhei no espelho e pareceu imperceptível, quem está de fora nem repara. Só enxerga quem sabe o que se passou por dentro. Uma perda sem alardes e holofotes, diria.

Tenho passado os dias acariciando com a ponta da língua essa ruptura, com saudades do que foi. Até acordei hoje com uma afta, de tanto cutucar o que já deveria ter deixado de lado. Continuo comendo tranquila, mastigação ok, zero transtornos. Mas a sensação de faltar algo incomoda. Quando se acostuma com uma presença na sua vida, é difícil desapegar. Mesmo que aquela parte não seja essencial para dar continuidade às funções normais e cotidianas, a cavidade permanece ali, como lembrança de algo que já foi inteiro.

No sentido fisiológico, não sinto dor. Porém, é doloroso saber que não tinha nada mais que eu pudesse ter feito. Cuidei direito, escovei, até fio dental topei usar. Então a questão nunca foi de manutenção, nesse quesito durmo de consciência tão limpa quanto meus incisivos, caninos e molares. Cáries só tive duas vezes na vida, de forma superficial, tratadas rapidamente antes que chegassem à raiz e infeccionassem. A sugestão quase sempre é cortar o mal pela raiz, mas esquecemos das ocasiões quando precisamos tratar antes de afetar a base, porque senão já fica tarde demais.

Recebi um diagnóstico amador e solidário para meu problema dentário: deficiência de cálcio. Faz até sentido. Algo fora do meu radar. Será que o dente já sentia que iria quebrar e não me avisou? E eu, tranquila, achando que estava tudo bem. Me apoiei, confortável, naquela parte de mim, crente de que só a perderia anos depois, por velhice ou acidente grave. Me lembrei dos “de leite”, aqueles passageiros. Eles coçam para nascer, podem dar até febre, passam um tempo preenchendo nossa boca e servindo muito bem para aquilo que se propõem. Até que em dado momento: amolecem e caem. Um por um.

Perder todos os dentes temporários dói, o que nos conforta é saber que novos, definitivos, nascem – perenes, resistentes à queda. Mas até sabermos que esses outros chegam para ocupar o lugar, paira a incerteza: por quanto tempo ficarei banguela? Aquele medo infantil de sorrir e os outros perceberem que estamos, de alguma forma, incompletos. Que nossa arcada dentária não chegou ao status esperado, ainda com brechas por onde passam comentários. Nos privamos ao esquecer que dentição completa não é pré-requisito para o sorriso.

O engraçado foi eu ter julgado esse meu dente, por já ser “de osso”, como algo forte demais para ser lascado de forma tão fugaz. Cheguei a me culpar, culpar a farinha que estava no prato do almoço, a ausência de alimentos ricos em cálcio, meu creme dental, a minha técnica de escovação. Há mistérios sem solução evidente, principalmente para quem é leiga no assunto. Cansei de fabulações e decidi pedir ajuda; marquei um dentista para a próxima semana, espero sair de lá com um diagnóstico e uma resina tampando o buraco. A vontade é de resolver tudo na vida assim, fácil, com uma consulta, uma prescrição: pronto, superado. Mas existem ranhuras sem correção rápida. A torcida é para que não seja este o meu caso.

Às vezes, os dentes caem, racham, lascam, quebram. É mais comum do que imaginamos. Nada é de fato “definitivo”, até aquilo anunciado como tal. É preciso aceitar: não só de cuidados se cria a permanência. Para aqueles e aquelas que chegaram até aqui e sabem que este texto vai além de dentística, uma dica: pare de passar a língua, porque dente quebrado não cresce. E afta na ponta da língua incomoda.

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