Não tem ‘fim da piada’ e tá tudo bem: é a vida

Por: Maria Mariana

Desde a infância eu tive dois grandes medos: aranhas e palhaços. Todo mundo sabia deles, mas não sabíamos o porquê (não sei até hoje de onde veio isso).

Bem no começo eu tinha pavor de palhaço. Depois, foi se juntando ao medo a indagação “por que você é tão… assim?”. Acho bem curiosa essa minha relação de repulsa com os palhaços porque eu sempre amei circo, e a parte dos palhaços eu até gostava de ver, mas bem de longe e sem interação comigo. Sabe aqueles brinquedos que vendem em circo, que é um palhacinho que fica escondido em um cone, que é forrado por tecido e você precisa empurrar a varetinha para o bonequinho palhaço aparecer? Então, eu AMAVA! Cada visita ao circo era um brinquedo desse (inclusive, o único namorado que eu tive me deu um de presente depois de velha).

Eu não sei bem, mas acho que o exagero do palhaço me incomodava um pouco, o que é um tanto quanto curioso porque eu sempre fui um exagero. A risada alta, o falar alto, expressiva demais, engraçada. Chamar atenção sempre foi uma característica minha, mas se eu era tão assim porque não gostava de coisas/pessoas que assim são? Não faz muito sentido, né? Bom, pra mim não.

Agora – jovem adulta que sou – não tenho mais medo, eu só gosto deles lá no canto deles e eu no meu, mas ainda não sei por quê. No final do mês passado, na madrugada do dia 24/09/21 pra ser mais específica, em mais uma noite de insônia fui assistir “JOKER” (Coringa, aqui no Brasil), porque mais cedo eu comecei a responder um questionário para uma bolsa de um curso de atores e, neste, falava de uma cena do filme, e percebi que nunca havia o assistido todo, filme esse de um palhaço que teve grande repercussão quando anunciado, etc.

No começo do filme pensei em parar para continuar depois, é um filme bem pesado e percebi que estava me identificando com o Coringa mais do que eu esperava ou gostaria. Fui controlando a ansiedade e me esforçando pra não ficar mal com o que o filme retratava. E durante a sessão, fui tentando entender os problemas do personagem e como, porque e onde eu me identificava. Lembrei de muitos comediantes que sou fã, que são depressivos, e então lembrei de mim, a menina engraçada, sorridente, feliz, que faz todo mundo a sua volta se divertir, mas que é depressiva.

Lembrei de quando era criança e minha mãe tentava me fazer aceitar o palhaço falando “não precisa ter medo, é só um homem fantasiado. É tinta, como maquiagem, é uma pessoa normal fazendo brincadeira, palhaçada”. Pessoa normal… Daí me lembrei de uma pessoa que trabalha com animações de festa infantil e que, no intervalo, tirava uma parte da fantasia e fumava um cigarro pra relaxar. Ela não é a Peppa Pig, é só uma pessoa normal, tentando levar alegria pra algumas pessoas e fazer dinheiro, porque é preciso.

Me lembrei também daquela música de Frejat, onde ele diz “rir de tudo é desespero” e lembro claramente de mais nova pensar: “Como rir pode ser desespero? É uma coisa tão boa, feliz, natural… como pode ser desespero?”. Mas hoje eu sei o que ele quer dizer, faz sentido e é uma total verdade. No filme, o Coringa não ri de verdade, em nenhum momento, e a maior busca dele é ser ouvido, fazer as pessoas rirem. Ele escuta desde criança “sorria”, “coloque um sorriso no rosto” e seu maior ídolo tem como lema “é a vida”, no sentido de “aceite como ela é e conviva com isso”. O filme é uma crítica social onde o Estado não dá a mínima assistência à saúde mental, a sociedade pouco se importa com a real falta e as necessidades das pessoas, e a mídia apenas quer lucrar em cima de tudo e ditar as regras do que é certo ou não.

Trazendo isso para nossas vidas, hoje percebo que não sou tão doce, leve, simples quanto a Mariana de duas décadas atrás. E como a obrigatoriedade de fazer as coisas de acordo com o que a sociedade espera nos afasta cada vez mais da nossa paz. Acho que ficou claro pra mim o porquê de ter me identificado com esse palhaço e talvez desde a infância eu já soubesse que são só adultos, pessoas normais, com problemas como os que são os meus hoje, mesmo sem fazer ideia do que isso realmente era. Sem saber lidar com a arrogância, falta de empatia e verdade das pessoas, com a depressão e ansiedade atreladas a essas atitudes sociais, temos a sensação (ou a certeza) de que não somos vistos e ouvidos, e a inquietude de querer fazer algo para mudar o meio e ser realmente feliz e realizar sonhos toma conta da nossa mente.

E aonde tudo isso me levou? A pensar em como somos silenciados desde muito cedo, muitas vezes nem sabemos aonde nosso meio de convívio está nos levando, o que nossa percepção, nossos pensamentos e posicionamentos estão sendo construídos. E é muito interessante no Setembro Amarelo falar palavras como “fale” e “converse”, mas, na prática, eu pergunto: como você escuta as pessoas? Será que realmente escuta? E eu não estou falando de sentar e outra pessoa “vomitar” um monte de sentimentos e pensamentos em você, estou falando do dia a dia. No dia a dia é besteira? Você não tem tempo? Se você assistir “Joker” vai perceber que ele era uma pessoa normal, com problemas psicológicos, sabia disso e só queria viver em paz fazendo o que gosta. A mãe achava o sorriso dele lindo, mas nenhuma risada foi genuína e a sociedade não tinha o mínimo de respeito e empatia com o desconhecido.

Enfim, acho que superei meu medo de palhaços. Acho que o medo do desconhecido, não saber o que ou quem estava atrás da pintura, é o que me assustava, mas a empatia de me colocar no lugar dele, e até me identificar, me fez entender suas questões e lutas. Sabe, eu não sei qual o intuito do texto pra quem lê, mas eu precisava escrever isso e eu espero que te faça refletir sobre você mesmo, o modo como julga as pessoas e que te faça ter vontade de assistir “Joker” para tentar entender melhor o que estou falando. Enfim, obrigada por me ler até aqui.

“Eu pensava que a minha vida era uma tragédia. Agora me dou conta que é uma comédia”

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