O quanto uma mulher é violada?

Por: Dani Fechine

Quando vi Andressa no chão, quase atropelada por um carro, a primeira pergunta que me veio à cabeça foi: o quanto uma mulher é violada? Reassisti o vídeo diversas vezes porque era surreal demais para acreditar. Você sai de casa para pedalar, praticar uma atividade física, coloca uma roupa confortável – que te faz sentir confortável – e um homem, dentro de um carro, se acha no direito de te violar, passar a mão na tua bunda. Será que estamos mesmo evoluindo em algum aspecto?

Eu não acho que o ser humano tem solução. Mas eu sempre acreditei que o feminismo e a luta de mulheres de todas as classes e raças pudesse minimizar os efeitos de uma sociedade patriarcal e machista. Mas em dias como esse, a gente perde as forças de gritar.

A partir de agora, diante tamanho absurdo, o que te faz afirmar que nenhum assédio irá te acontecer? Se Andressa, em cima de uma bicicleta em movimento, foi vítima da mão de um homem grotesco enquanto o carro também se movia? Talvez esse tenha sido o maior excesso de assédio que eu já vi em toda minha vida. E um sentimento de impotência que não passa nunca.

A impressão que eu tenho é que não dá mais para sair de casa. Que, talvez, só em casa estaremos seguras – e sabemos que nem isso é verdade. O que eles querem? Nos ceifar? Porque isso nos mata um pouco a cada dia. A exaustão nos leva a um grau de cansaço que viver em um mundo onde não somos respeitadas diariamente perde completamente o sentido.

Quando Andressa caiu da bicicleta depois que um homem passou a mão na bunda dela, todas nós, mulheres, caímos também. Eu quis correr até ela, levantá-la, erguê-la, apoiá-la. Eu quis estar com Andressa porque, de certa forma, eu sempre estive com ela, por ela, por tantas, mesmo que pareça tanto que estamos sozinhas. Eu quis evitar que isso acontecesse, mas jamais saberia como. Eu quis correr atrás do agressor e tomar uma atitude intempestiva, impulsiva. Eu quis que nada disso tivesse acontecido e que, ao menos, eu tivesse palavras para explicar o que se passa aqui dentro.

Século XXI. Ano 2021. Lei Maria da Penha em vigor desde 2006. Feminicídio é crime hediondo desde 2015. A lei que tipifica a importunação sexual está em pleno funcionamento. Se a legislação não é capaz de parar um homem, o que mais é necessário? Me responde se a sensação não é mesmo de impotência?

A gente estuda, a gente lê, a gente vê a evolução das discussões sobre gênero, feminismos, sexismo, machismo, mas na prática continuamos sendo agredidas, violadas, assediadas, estupradas, assassinadas. Sabe por quê? Simplesmente por sermos mulheres. Se falar ainda significa alguma coisa, eu queria dizer que nosso corpo não é convite para nada disso. Nosso corpo não pede absolutamente nenhuma violência. É o nosso corpo. Nossa vida. Nossa liberdade. Só nossa.

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