Planeta Fome

Por: Marília Valengo, colaboradora do Nossa Fala

Uma conhecida da minha mãe mandou mensagem para falar de uma campanha que estava fazendo em uma comunidade aqui em João Pessoa onde a fome é tão grande que as pessoas estão comendo ratos. Imediatamente lembrei de Elza Soares naquele episódio de sua primeira apresentação em um programa de Ary Barroso, em que ela responde quando perguntada de onde vem: “Do mesmo Planeta que você, seu Ary, do Planeta Fome”.

Que realidade tão destoante de tantos de nós que choramos, adoecemos e até lucramos com situações que poderiam muito bem ser o paraíso para quem come ratos. Mas que grande ridícula essa nossa vida.

Não existe um sinal, uma farmácia, um supermercado, uma padaria em João Pessoa sem alguém pedindo comida. Eu passo pelo trânsito no meu carro com ar-condicionado, sofrendo pelo, sei lá, verso inacabado, medicada para aguentar o tranco de uma vida de classe média, sofrendo com síndrome da impostora enquanto uma criança bate na minha janela. Uma criança de 8 anos que come o quê?

Miséria, involução social, mulheres perdendo direitos, pessoas negras amarradas em postes e em NY famosos desfilam no tapete vermelho aquilo que menos importa.

Trabalhadores que pavimentam a minha rua desde o começo de Agosto defecam e urinam atrás do muro pois não lhes fora dado condições humanas de trabalho. A obra está parada, duvido que terminem. O prefeito fez ótimos posts para o Instagram, precisamos admitir. Está bem assessorado por sua equipe de mídias sociais. Seus funcionários é que não, sem ferramentas adequadas de trabalho, sem um banheiro para fazer suas necessidades.

E por falar em redes sociais, lá as pessoas continuam fazendo seus vídeos para dizer que querem ser vistas. As pessoas de bairros de elite, em seus apartamentos bem iluminados, querem ser notadas em sua humanidade. No seu sofrimento, na suas fendas. Mas o que é mesmo ser humano nesses dias?

Estou com taquicardia novamente, mas não identifico a causa. Meus problemas são mesmo válidos? Olha o que eu penso de verdade, deixa eu falar para não engasgar em desculpas. Eu acho que meus problemas e minhas dores podem até ser legítimas. Claro que são. Tome aqui 300 reais por essa ótima sessão. Obrigada por validar meus problemas. Por me dizer qualquer coisa rápida e de fácil compreensão. Merecimento? Você acha? Me diga que posso ser vegana, minimalista, magra, posso viajar no lugar de comprar na Zara, posso reduzir meu lixo com calcinhas menstruais, que se meus bebês usarem fraldas ecológicas fica tudo bem. Fraldas ecológicas são caras, mas realmente valem o investimento. Investir, esse privilégio.

Nosso mundo correto é muito caro, eu sei e vocês sabem. Podemos doar no lugar de pedir. As pessoas se chateiam com os pedintes. Pede-se uma bandeja de carne ou ovos. Pede-se fraldas, leite, café, rosquinhas de leite. Gasta-se 800 reais em uma feira que chamamos de básica cheia de brócolis e frango orgânico, o “essencial”, e a menina de 8 anos nunca foi à escola.

As pessoas estão comendo ratos em uma favela de João Pessoa enquanto uma mulher com a bandeira do Brasil no carro de 180 mil reais dá uma lição de moral em uma senhora magra que pede esmola, mas poderia tentar arrumar um emprego. Porque quem quer, consegue. Quem quer trabalhar, arruma serviço, vocês não lembram de Will Smith naquele filme? Aquele filme é bem melhor que esse terror que assistimos diariamente.

Não vamos esquecer o que assistimos, enquanto outros comem vocês sabem o quê.

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