Eu e minha amiga secreta

Por: Mariana Costa

Ela chegou em um período bem conturbado. Era tanto trabalho, tantos prazos, tanto estudo acumulado… Era pouco tempo para cuidar de mim, dar atenção ao marido, ver minha família. Mas ela esteve sempre ali do meu lado. Sua presença deixava meu coração acelerado, eu conseguia fazer mais coisas do que achava possível e às vezes era até difícil conseguir dormir. Por um tempo, achei que a companhia dela até ajudasse na minha produtividade, meu corpo estava sempre desperto. Estranho, não?

Mas, em algum momento, ela sumiu. Eu pensei que talvez precisássemos desse tempo afastadas, eu precisava desacelerar. E desacelerei, me acostumei com sua ausência e pensei que a vida seria melhor assim. Ao menor sinal de distração, ela voltou com força total: meu coração acelerado pareceu que iria sair pela boca, um aperto no peito extravasou meu corpo em forma de choro e eu não conseguia explicar isso a ninguém. Ela estava lá quando eu acordava, quando eu evitava o cafezinho da manhã e quando passava o dia inteiro tentando me concentrar nas atividades do dia. Ela estava lá quando eu tentava dormir e não saía de perto quando minha mente cismava em despertar.

Éramos só eu e ela, uma relação de simbiose e toxicidade que atravessava os dias, as noites, as semanas e os meses. Ela e eu já éramos uma só, parece que não cabia espaço para meus projetos profissionais, para meus amigos, para aquele momento a dois de descanso e chamego. Aliás, que descanso?

Eu e minha amiga secreta vivíamos uma tormenta e a qualquer momento que eu tentasse pedir ajuda, parece que ela me sugava um pouco mais. Eu tentei entendê-la, tentei controlá-la de forma que nossa convivência fosse saudável, mas sozinha eu não conseguiria. Depois de muitas DRs decidimos que precisaríamos trocar de hábitos: o chá pelo café, a cerveja do fim do expediente por um bom filme, o coração acelerado por um exercício de respiração, terapia. Se ela não poderia se afastar de mim, que pelo menos conseguíssemos conviver em paz.

E estamos conseguindo. Consegui dizer o nome da minha amiga secreta ao meu marido, à minha família e tenho falado sobre ela com alguns amigos. Ela também é pauta constante na minha terapia e minha psicóloga a conhece muito bem. Se você está preocupada ou curiosa, cara leitora, fique tranquila, hoje estamos bem. Mas amanhã podemos não estar. E minha rede de apoio e meus novos hábitos me sustentarão pelo tempo que me resta.

O nome da minha amiga secreta é: ansiedade.

Tags:

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS POSTAGENS

Menu