Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis | Jarid Arraes

Por: Kelianny Nonato

Nossa Fala faz parte do Time de Leitores do Grupo Companhia das Letras, recebendo de forma periódica livros selecionados. Para democratizar esse conhecimento e facilitar o acesso a essas publicações, disponibilizamos resenhas de nossas falantes sobre as obras.

A resenha deste mês é um convite ao livro de Jarid Arraes, um dos grandes nomes do cordel contemporâneo e que mantém viva esta que é uma das tradições literárias mais importantes do Nordeste. Pois, apesar da literatura de cordel ter origem europeia, é no nordeste brasileiro que esse legado se mistura aos costumes e se mantém presente em todos os estados da região como referência cultural.  

Jarid é cearense de Juazeiro do Norte e, além de cordelista, também é escritora e poetisa. Venceu o prêmio APCA na categoria Contos/Crônicas e hoje reside em São Paulo, onde criou o Clube de Escritas para Mulheres.

O livro que tivemos o prazer de receber é o Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis. Obra singular na literatura brasileira, que retrata a história de figuras importantes que não figuram em muitas publicações. O exemplar é dividido em 15 capítulos, cada um dedicado a uma heroína diferente. O capítulo é composto também por uma ilustração da homenageada feita pela artista Gabriela Pires. Além do cordel e da arte, apresenta-se um resumo da bibliografia da mulher retratada. 

Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

As 15 homenageadas são apresentadas em ordem alfabética: Antonieta de Barros, Aqualtune, Carolina Maria de Jesus, Dandara, Esperança Garcia, Eva Maria do Bonsucesso, Laudelina de Campos, Luisa Mahin, Maria Felipa, Maria Firmina, Mariana Crioula, Na Agontimé, Tereza de Benguela, Tia Ciata e Zacimba Gaba. São histórias reais de rainhas e princesas, políticas, escravizadas, catadoras de lixo que muitos teimam em apagar.

Os capítulos não acompanham a ordem cronológica da história do Brasil e não evidenciam nenhuma referência ou proximidade das personagens. Cada uma é uma estrela isolada e sua história fala por si só. As protagonistas não são as musas mencionadas recorrentes em nosso cotidiano. Dependendo da bolha que você está inserida, pode ter ouvido falar, como cita os escritos na contracapa do livro que falamos aqui, sobre Dandara ou Carolina Maria de Jesus. Mas não sobre Luisa Mahin ou Eva Maria do Bonsucesso e tantas outras figuras que com suas lutas nos permitiram que estivéssemos aqui. 

Pode-se dizer que todas as 15 mulheres do livro são vítimas do epistemicídio, mais uma das formas cruéis que apagam dos feitos importantes o povo negro. Pois o epistemicídio, termo criado pelo sociólogo e estudioso das epistemologias Boaventura de Sousa Santos, é a denominação que melhor explica o processo de invisibilização e ocultação das contribuições culturais e sociais não assimiladas pelo ‘saber’ ocidental. Jarid Arraes tenta evitar que isso aconteça às suas heroínas brasileiras. 

Iniciamos, então, a leitura em Santa Catarina no início do Século XX, voltamos à mãe África, vamos a uma favela de São Paulo e, depois de tantos lugares do Brasil, encerramos os capítulos no Espírito Santo.  

Os cordéis não contam apenas os feitos em vida e citam as obras de escritoras, mas ressaltam pontos da personalidade de cada homenageada, para que possamos conhecer melhor a mulher que é exaltada. Assim, não sabemos apenas que a Antonieta de Barros era uma política e jornalista que lutou contra o racismo e o machismo. Podemos ler indícios sobre as qualidades que iam além da vida pública. O que nos mostra a pesquisa extensa e minuciosa que a autora realizou para escrever os versos. 

“Por seu grande caráter

Era muito admirada

Pelos seus jovens alunos

Ela era celebrada

Porque era obstinada

Coerente e respeitada.“

(página 20).

O que Jarid nos traz é um resumo artístico de memórias de quem lutou por liberdade e que não se calou em busca de seus direitos e de mais espaço na política e na cultura. Mas é também um convite à curiosidade que instiga para que se conheça mais não só sobre a vida das personagens, como também suas obras. Como no caso das escritoras, de ler os livros de Carolina de Jesus, de Antonieta de Barros, ou Úrsula, o pioneiro romance de Maria Firmina dos Reis. 

“De Úrsula chamou

Seu romance publicado

E na história brasileira

O seu nome está gravado

Como sendo a pioneira 

Desse gênero citado”.

(página 109)

Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis preenche um espaço vazio na nossa literatura, conta sobre a vida das pessoas que foram as nossas bases de luta contra o racismo e o patriarcado no país. São vidas ecoadas por uma voz que nos mostra o que não podemos perder: nossas origens de inspiração. Por isso, as últimas páginas do livro também são essenciais. São páginas com linhas em branco, acompanhadas do convite que seja escrita a história de uma mulher negra que marcou o contexto geral ou pessoal do leitor. Deixando a reflexão que não basta apenas conhecer as múltiplas histórias construídas pelas mulheres negras, mas que devemos contá-la para as novas gerações e rememorar sempre que for possível a contribuição significativa que cada uma nos deixou. 

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