Tempo livre

Por: Vitória Quirino

Até dois anos atrás, nos dias 17 de setembro eu contava mais um ano de caminhada na docência em fisioterapia, em uma instituição pública de ensino superior. Foram 32 anos ensinando e aprendendo até alcançar os requisitos necessários para a tão sonhada aposentadoria. Por tudo o que vivi sou extremamente grata. Para o privilégio de finalizar o ciclo profissional, principalmente em um país onde impera o desemprego e a precarização do trabalho, costumo sentir e cantar, “se você crê em Deus erga as mãos para o céu e agradeça”. A dinâmica da vida acadêmica é quase sempre de trabalho mental, emocional e físico, antes, durante e depois das atividades, com obrigações e prazos que quase todo o tempo é dedicado às tantas demandas.

Mas “o tempo é livre”! Mesmo relacionado aos milésimos de segundos, minutos, horas, dias… dedicados aos afazeres, ele segue lindamente à mercê da suposta interpretação de cada pessoa que percebe o seu passar ‘v a g a r o s o’, ou por vezes no compasso próprio ao que está sendo feito ou, ainda, o associando a uma passagem que quando se vê, já foi… Quando ao tempo me alinho, lenta ou rapidamente, fluímos juntos. 

São eras, milênios, décadas, anos, meses, semanas, sóis e luas em suas danças… e ele segue em liberdade pelos ‘três tempos’ que se fazem um. O passado que se faz presente pela lembrança, o presente que vivido já é passado e o futuro que se faz presente através da expectativa. E o seu fluxo segue balizando esse instante que passou e acolhendo os que virão.

No período que estou vivendo agora tenho experimentado viver o tempo livre. Esse é um dos desejos e até necessidade de muitas pessoas, mas são tantos os condicionamentos e distrações para preenchê-lo, que demorei a perceber que é possível e que está tudo certo deixar que ele siga em seu ritmo, lenta ou rapidamente, do jeito que for, afinal, o tempo das obrigações e prazos foi cumprido ao longo da vida. São muitas as dimensões do tempo e embora nelas imersas, nem sempre nos atentamos: cronológico, biológico, astronômico, histórico, espiritual, da física, das mudanças climáticas, o tempo para si, para o outro, do outro… O tempo da natureza, do som, da luz… O tempo que artificializa as horas e o decorrer da vida. 

“O tempo é arte”! Assim ele é compreendido pela sabedoria dos povos maia. É uma frequência de sincronização com os ciclos universais em uma harmoniosa e livre expressão artística. A arte do tempo pode ser percebida nas várias manifestações da natureza. “O tempo é natural”!  Entendem os povos originários nas suas vivências e percepções da harmonia e da beleza do natural que preenche e enriquece cada momento. Talvez seja essa uma das muitas e preciosas lições que o tempo em sua liberdade revela, a de ser múltiplo, cíclico, fluido e transformador.

Nas atividades que eu agora escolho me dedicar tem sido um bom exercício prestar atenção e respeitar a sua ação de tantas, diferentes e sutis formas: como o tempo do aprendizado de uma habilidade, o tempo como uma variável para a captação de uma fotografia, o tempo de uma decisão, o do compasso de uma música, o da preparação para um novo desafio, o tempo da realização de um desejo, o de exercitar a paciência e a esperança, o de liberar os pesos e soltar as amarras e sentir que ‘Eu Sou Livre como o tempo que passa’. 

Por ser tão valioso, a ele invoco na oração-canção de Caetano Veloso: “Peço-te o prazer legítimo. E o movimento preciso. Tempo, tempo, tempo, tempo. Quando o tempo for propício. De modo que o meu espírito. Ganhe um brilho definido. Tempo, tempo, tempo, tempo. E eu espalhe benefícios. Tempo, tempo, tempo, tempo”.

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