O seu personagem é fictício ou real? 

Por: Beatriz Pêgo, colaboradora do Nossa Fala

Estamos no meio de um jogo e você deve criar o personagem que vai te representar. Você pode escolher a sua aparência, a sua profissão, a sua casa, as suas atividades e as pessoas com as quais você se relaciona. Tudo de acordo com o que vai te trazer mais vantagens dentro daquele ambiente e, consequentemente, te tornar um vencedor. 

Todavia, você também tem a opção de criar um personagem que represente de fato quem você é, com as suas características, defeitos e preferências, sem necessariamente estar de acordo com o que vai te beneficiar no jogo.

A esse ponto você deve estar achando que esse texto é sobre The Sims ou qualquer jogo que tenta simular uma realidade, mas na verdade é sobre a Internet.

No início, as redes sociais realmente tinham o propósito de ser um ambiente para as pessoas socializarem e estabelecerem uma conexão, que começou na fase 01 e aumentou o nível com o passar do tempo: começando com as comunidades Orkut, evoluindo para as cutucadas no Facebook, chegando nas curtidas do Instagram, nas figurinhas do WhatsApp e assim por diante. Assim como em um jogo, a cada fase o nível de dificuldade aumenta e exige um esforço maior. 

O que era para ser apenas uma forma de socialização, foi se tornando cada vez mais um espaço dominado pelas marcas e essencialmente comercial. Não que isso seja apenas algo ruim, a Internet deu vez e voz para que muitas pessoas pudessem se sobressair e ganhar oportunidades. Entretanto, também virou uma grande competição com jogadores de todos os tipos imagináveis. Construímos um personagem de acordo com aquilo que queremos que as pessoas vejam e saibam sobre nós. Ao que me leva a pergunta: o seu personagem é fictício ou real? 

Tomemos como exemplo o Instagram. O conceito inicial da plataforma era apenas ser uma rede para o compartilhamento de fotos. Quem aí não sente saudades da época que o feed só tinha fotos de pezinhos para o alto na praia, páginas de livros, sol se pondo, comidas, reunião dos amigos e legendas nada conceituais, que atire a primeira pedra. Os personagens eram mais reais e a cobrança da competição era menor. 

Depois de muitas atualizações, o jogo foi ficando mais difícil. Surgiram mais filtros, mais usuários, mais ferramentas, mais marcas e, por consequência, as regras mudaram. O feed organizado, os stories diários, as hashtags para ajudar o engajamento, os vídeos rápidos e muitos outros, são apenas alguns exemplos do que, tecnicamente, pode te ajudar a ganhar mais pontos e entrar para o time vencedor dessa competição. Tudo ficou cada vez mais ensaiado e cada vez menos autêntico. Passamos a escolher personagens mais fictícios do que reais. 

Mas até onde vale a pena perder a essência para vencer esse jogo?

Falando de uma perspectiva mais pessoal, perdi as contas de quantas vezes eu quis apenas postar meus pezinhos calçados de All Star, paisagens ou quantos quilômetros eu fiz na corrida, mas sempre uma voz no meu subconsciente me diz que uma foto posada e editada com o melhor filtro seria o “certo” a se fazer. Quantas vezes deixamos de postar aquilo que realmente queremos para postar o que os outros querem ver? Existe uma diferença enorme entre pertencer a um grupo e se perder na multidão. Às vezes tenho a impressão que não faço parte do time vencedor, mas sim sou apenas mais uma jogadora. Me perco entre o limite do que sou na tela e o que é real.

Porque nos dedicamos tanto para manter forte um personagem no percurso do feed que nunca tem uma linha de chegada? Estamos fingindo tanto que o que era fictício se tornou o real? 

A verdade é que eu não sei. Mas deveríamos nos preocupar menos com a construção de uma pessoa que não existe fora desse jogo sem regras, e mais com a de quem somos no mundo real, onde o tempo se perde enquanto só se tem uma vida para sobreviver, não existe o botão de recomeçar depois do fim. 

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