Da dor sentida à morte em superação: mainha, eu não sou hétero! 

Por: Negrícia, mais uma Silva assumida! 

Bença, mainha! 

Essa carta que eu nunca enviarei versa sobre a lágrima que não derramei, um grito e um nó na garganta que ainda tá preso, mas também pauta a morte que passei e a certeza que estou tentando reviver! 

O divisor de águas você já sabia, eu não sou hétero! Eu sou lésbica! 

É difícil te ver sofrer por uma coisa que não tem mudança, e parece que quando temos ciência de que estamos afetando quem nos ama e o motivo ser intransmutável, a dor só aumenta! A minha sexualidade pode ser um peso para senhora e era também pra mim, mas depois que eu morri, tirei metade dessa carga existente. Estava há muito tempo negando o direito à felicidade, e isso é tão doloroso, mais tão perverso, que quebra com a força do seu egoísmo no que tange o meu amor e respeito. Algumas décadas sendo parcial para que a sua totalidade não fosse afetada, enquanto estava me destruindo por dentro, me perdendo de mim, um verdadeiro turbilhão de sentimentos negativos… 

Não queria te decepcionar, sei que existe muita expectativa em relação a minha pessoa, mas agora eu faço o meu caminho, a partir das minhas convicções, certas ou erradas (que não é o caso), no futuro teremos aprendizados. Afinal, nada melhor que um dia após outro, né?

Tás ligada que o que tá escrevendo aqui também é um cansaço? Neste sentido, estou no processo de autoperdão, afinal quanto tempo de privação? E nem me lembre da culpa?! Ela é o julgamento da pessoa do presente com seus acúmulos, visitando o sujeito do passado. Maya Angelou foi muito feliz quando fala: “Perdoe-se por não saber o que não sabia antes de aprender”. E depois que eu morri, mesmo lidando com a rejeição, aprendi tanto…

Te respeito, reconheço seus esforços, tenho profunda admiração e amor pela senhora, mas chegou o momento que eu necessito me respeitar e ter profunda admiração e amor por mim. A nossa família sempre falou sobre autoamor, hoje me assumo também porque me amo! E nisso tudo, eu só escolhi amar…

Mainha, a gente tá perdendo tanto tempo, tantos momentos felizes, tantos sonhos a serem realizados!! Debaixo dessa armadura tem uma pessoa, sua filha, ciente do mundo violento a enfrentar e que gostaria de contar com o teu apoio, um espaço seguro dentro de casa, nosso lar!! Seria fortalecedor… 

Quantas vezes coloquei a máscara, sorri quando queria chorar sendo trucidada verbalmente, inferiorizada, demonizada e colocada, mesmo indiretamente, como doente por causa da sexualidade? Quantas vezes escapei de piadas e falas violentas? Mainha, você não percebe que, enquanto eu estou me perdendo no meio disso tudo, a senhora está me perdendo também?

Não vou mentir, tenho uma inveja danada de quem passa por isso e é acolhido! O famoso “por que não eu?” pisca na minha mente no cotidiano. No fundo, no fundo, já sabia que não teria boa recepção e por isso demorei tanto, me neguei tanto, passei por diversos pesadelos sozinha e não pude contar com o teu ombro amigo por medo da decepção e rejeição, até que esse pavor foi me engolindo, paralisando, cerceando os meus planos, arrancando o meu direito à vida plena, à felicidade, me fazendo superficial, quando sempre estive ciente da minha totalidade, do anseio de ser vista, reconhecida, amada e, principalmente, respeitada! Não passei por esse B.O todo para ficar escondida, não tenho vergonha do que sou e agora estou VIVA! 

E como a única certeza da vida é a morte e que do sonho para ter concretude carece da construção e cruzamento de uma ponte, tentei durante muito tempo te preparar para receber a notícia, afinal quem ama cuida… Mainha, o sonho de ser inteira se mostrava a uma conversa de distância, estava tão perto considerando a exaustão da pressão e autodestruição em ser parcial quando já sabia da potência da minha integralidade. A conversar representa a morte simbólica, afinal uma outra parte estaria à visualização, mas que não transformaria a essencial do sou. 

Sei que a senhora me ama, é reciproco, e eu vou respeitar o tempo! No final das contas, estou na terapia e orando ao tempo, pois, como canta Caetano, podemos fazer pedidos, “ele é um senhor muito bonito e compositor de destino, um dos deuses mais lindos”! Quero ter uma relação honesta com a senhora, queria tão somente o privilégio de poder contar com a presença livre e sem discriminação da pessoa que amo do meu lado na feijoada ou pirão do domingo, de poder te contar sobre minha vida amorosa tal como meus irmãos héteros, de sairmos todas juntas para passearmos, de ver vocês duas, pessoas importantes pra mim, em coletivo, dialogando… Mas, bem fundo mesmo, eu queria ter a certeza que passarei por muitas dores e poderei contar com seu colo e dengo! 

Tags:

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS POSTAGENS

Menu