“Ouça a si mesmo e siga em frente”

Na ânsia de não ser escrava dos homens, do tempo, do dinheiro ou de uma perfeição inalcançável, eu escolho o risco do percurso e a leveza de seguir as perguntas que não têm resposta. E nem terão.

 

Por: Ana Beatriz Rocha 

Eu não sei qual será o título deste texto. Eu sei, para você que me lê depois do ponto final, depois que o caos virou linearidade na tela e que os parágrafos estão aqui enfileirados, não faz sentido. Não faz sentido saber que agora, no momento em que estou escrevendo essas palavras vazias de sentido, eu não sei o título. 

Eu sempre fui um tanto contrária às convenções de escrita, avessa a determinados manuais que dizem “primeiro nasce um texto, depois se busca um título”. Eu não sou determinista. Se cada narrativa é uma história de dentro que abro para o mundo, cada produção terá uma ordem independente do que ordenaram previamente. Acontece que minha criatividade, na maioria das vezes, surge de títulos. No meio da vida que vou levando, uma frase lateja (a ponto de pressionar as laterais dos meus olhos) e eu decido partir dela para desaguar em algum lugar. 

Desta vez, nessas linhas que te entrego agora, decidi me contrariar. Decidi me pôr do avesso e emaranhar as ideias que fossem surgindo sobre tudo que tenho pensado nos últimos dias. Na verdade, o universo tem se comunicado com meus neurônios restantes insistindo para que eu pense sobre algo. E aceitei. 

Tudo começa numa tradição divertida e “motivadora” que criamos em casa. Entre os artigos comprados para meu aniversário, me surpreendi com um pequeno quadro a giz que costumam utilizar como marcador de datas comemorativas. Quando o festejo acabou, percebemos que era mais divertido incorporar o quadro em branco à decoração da sala. Escolheríamos, então, a frase da semana. Todo domingo reservaríamos um tempo para pensar qual mantra nortearia os próximos 7 dias. 

A primeira eu escolhi, uma frase que li no Instagram de uma mochileira dizia “pés no chão, mas só as pontas”. Ler aquilo me deixou sem ar, viver aquilo seria um desafio diuturno. Fincar raízes, mas soltar amarras. Essa foi a interpretação que eu dei, afinal, sempre olhamos o mundo e as coisas ditas ou não ditas com nossa interpretação pessoal. 

A semana acabou, era tempo de uma nova composição frasal. Demorei pensando, até que ele sugeriu algo que me tiraria o ar tanto quanto a semana anterior. “Ouça a si mesmo e siga em frente”. Leia novamente. Mais uma vez. Perceba, então, que as palavras que se unem entre as aspas acima não são tão óbvias quanto parecem. Ouça. A. Si. Mesmo. 

Gastei horas decifrando o enigma que criei para uma simples plaquinha escrita a giz. E estava lá, duas semanas seguintes, o dilema das amarras que se soltam. Os ruídos do mundo são, por vezes, ensurdecedores. Quando não, são altos o suficiente para calar as vozes internas. Se apelarmos para a neurociência afetiva, então, entenderemos que até os sons que achamos ser nossos estão embalsamados dos dizeres do mundo, dos seres que nos criaram, das movimentações à nossa volta e de todo o resto que sobra do que é ser humanidade. 

A obviedade, mais uma vez, se liquefaz. Transcendendo a ideia de que a frase, para ser vivida, se limita a experiência de silenciar as vozes de fora para ouvir as internas, concluo que é mais sobre propor uma conversa franca entre as diferentes personagens que convivem do lado de dentro. Se o que somos foi produzido pelo meio, é bem provável que a gente acorde um dia querendo deixar partes de nós pelo caminho. E tudo bem. 

“Ouça a si mesmo e siga em frente”. Em círculos flutuantes ainda reviro os olhos na busca do que significa essa frase-conselho. Depois de muito, notei que esses dizeres só farão sentido para um grupo de pessoas: os que têm coragem de se olhar desnudos. Parar para se ouvir é um risco que se assume, é acreditar que o redemoinho de emoções e pensamentos não te destruirão tão facilmente quanto você já temeu um dia. Percebi que a voz de dentro não exclama soluções fáceis para problemas complexos. Minha intuição é, quase sempre, uma sequência de interrogações.

O que me tirou da inércia sempre foi a dúvida. Eu não sou feita de certezas. Na verdade, eu temo determinismos. Foi num castelo de certezas que rodearam violências estruturais que mulheres negras jovens como eu seguem lutando para se desvencilhar. Sobre certezas construíram muros altos o suficiente para dividir povos que, caso nunca separados, teriam tido força para derrubar os donos da máquina de moer gente que nos trouxeram para esse inferno terreno. 

“Ouça a si mesmo e siga em frente”. Eu ouço as perguntas, ouço as dúvidas que vão me levando cada dia mais para perto de mim. Eu reconheço que, se a voz interna ditasse um caminho linear, já da partida eu excluiria diversas pequenas trilhas que podem me levar aos lugares mais deslumbrantes que eu sequer posso imaginar. Não, eu não quero ouvir as vozes do mundo. Tampouco quero que o som que ecoe dentro de mim seja um reflexo dos achismos que nos impedem de lidar com o medo, com a frustração.

Se for para deixar algo gritar aqui dentro, que seja a dúvida. Não a dúvida que me submete às construções alheias, mas a dúvida que me faz experimentar o viver. Que me lança nos braços da vulnerabilidade como a única bússola possível. Eu não tenho como garantir um final feliz. Passar a vida sendo guiada pela sede de alta performance é quase como aceitar passar meses numa floresta assustadora e cruel, se apegando à remota possibilidade de um oásis no final. 

Na ânsia de não ser escrava dos homens, do tempo, do dinheiro ou de uma perfeição inalcançável, eu escolho o risco do percurso e a leveza de seguir as perguntas que não têm respostas. E nem terão.

 

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