Carolina 11 milhões de vezes

Por: Kelianny Nonato

No começo da minha adolescência, lembro que vi uma matéria no Fantástico que me deixou muito intrigada: consistia basicamente em mostrar Wanessa Camargo e o namorado passando o dia sem poder ver seus reflexos em espelhos. Eles relataram como tinha sido angustiante e difícil passar as horas sem ter uma referência de si mesmo.

Eu fiquei pensando sobre isso e me perguntando o que representaria o espelho em minha vida e cheguei à conclusão que é a leitura que faz esse papel. E se eu ficasse sem ler meus livros, os rótulos do shampoo, as receitas daquele livro velho que eu tinha…? Como seria minha autorreferência? A leitura sempre me mostrou quem eu sou e quem eu poderia ser, ficar sem esse poder a mim concedido seria agoniante.

Depois, com a maturidade chegando, me dei conta que milhares de pessoas viviam sem o meu espelho da leitura. O Brasil é um país em que mais de 11 milhões de não-alfabetizados vivem sem poder ver seu reflexo diariamente. São pessoas que não podem ler o rótulo da própria comida que comem ou ler histórias para o filho, ou sequer entender o que está escrito no letreiro do ônibus que precisam para o transporte. 

Um mundo bem diferente do que vivo. Além de espelho, passei a vida reconhecendo e aprendendo que ler e escrever não são só habilidades, são instrumento de luta. O fato de eu saber ler hoje, mesmo sendo neta de uma mulher que morreu sem reconhecer a escrita do próprio nome, me faz considerar que este é o meu maior privilégio, que não veio por acaso. 

O que me lembra a história de Carolina de Jesus, uma das mais brilhantes escritoras da língua portuguesa, uma escritora negra que teve acesso apenas a dois anos de estudo. A mulher de um fazendeiro pagou os estudos dela e com isso ela aprendeu a ler e a escrever. Graças a esse pouquíssimo tempo na escola, ela conseguiu escrever um dos mais brilhantes livros da literatura brasileira: O Quarto de Despejo. 

O que me faz refletir também quantas Carolinas existem por aí que não tiveram acesso à educação básica, que não sabem ler, que não sabem escrever, mas que poderiam nos contar histórias maravilhosas em forma de livro possíveis de entrar para a história da literatura brasileira.

O que me lembra também que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, já dizia Paulo Freire. Então, existem milhares de Carolinas que teriam outros mundos de conhecimento para nos passar, mas que não têm como registrar isso ou não conseguem se expressar como gostariam.

Ler é um dos grandes privilégios do mundo, é um privilégio meu e seu, que está aqui acompanhando essas palavras. 

Como você tem usado seu privilégio hoje?

Tags:

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS POSTAGENS

Menu