Estranhamente pertencente a mim

Por: Daniela Klem, colaboradora do Nossa Fala

É estranho pensar sobre ser pertencente a um local. Seja ele de fala, social ou de permanência física. Não é algo corriqueiro para mim. Sempre tentei ser parte de algo, mas estava mais para alguém na plateia. É exatamente o modo que me vejo nos ambientes que habitei temporariamente. Um alguém na plateia. Telespectadora da minha própria vida. Ou dos espaços que achei que precisaria estar.

Pensando nos fatores que fazem essa sensação ser tão real, não chego à conclusão da existência de um apenas. São diversos. Conjunto de coisas que me fazem sempre ficar à margem das bolhas sociais que me inseri.

Era como uma asfixia imaginária. Sentia a necessidade do ar da liberdade. Eu era muito grande para caixas tão pequenas. Não tem relação com as pessoas, mas suas ideias. Ou as ideias que cada grupo apoiava. Novamente, não tem relação com as pessoas. Na verdade, sempre as achei grandiosas demais para dadas realidades.

É ruim saber da sua grandiosidade solitariamente. Mas é o que basta. Por muitos momentos você é tida como prepotente. Entendo. Realmente, é uma linha muito tênue. Você pode pensar que confiei no meu instinto e desbravei esse mundo sem a necessidade de rótulos. Seria lindo. Mas estava presa nas bordas da bolha, lembra? O máximo que fazia era ter agitações de não conformidade. Se olhasse de fora, talvez pudesse me ver toda desproporcional dentro de moldes descabidos para mim.

O processo para me reconhecer um ser não pertencente, mas com potencial suficiente para criar meu próprio espaço, tem sido doloroso. Mas se olho para trás vejo o tanto que já caminhei. Sou tantas. Difícil me rotular pertencente a algo, porque as muitas que sou são conflitantes entre si. E entender isto não é um processo rápido. Ter coragem para ser, também não.

Aos poucos, vou soltando facetas minhas ao mundo. E cada qual, segura de si, ao seu mundo vai se entregando. Porque cheguei à conclusão que sou diversa o bastante para ser só de um lugar. Quero ser peregrina dos meus próprios momentos. Visitar a diversidade. E me entregar à minha própria verdade. Que é única. Mas progressiva ao ponto de reconhecer que antes não sabia tanto. E complementar, porque agora tem sido extraordinário descobrir ser. E penso comigo: “Como não percebi antes?”. Que ingênua eu. As descobertas são como passos, só é possível conhecer se ousar colocar a perna e caminhar. E como eu iria saber, se não tinha a coragem para, ao menos, tentar?

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