Sobre medalhas olímpicas e pranchas de isopor

Por: Mariana Costa

Nos últimos dias, estamos vivendo momentos históricos nos Jogos Olímpicos de Tóquio, entre eles a vitória da pequena skatista Rayssa Leal, medalhista de prata aos 13 anos, e o ouro inédito no surfe, conquistado por Ítalo Ferreira. Ainda na modalidade de street skate, a francesa Charlotte Hym virou assunto por ser atleta olímpica e ainda ser doutora em Neurociência Cognitiva. E aí, a internet não perdoa e não cansa de perguntar: o que você estava fazendo aos 13 anos? Ítalo começou a surfar com uma tampa de isopor, qual sua desculpa? Charlotte é doutora e atleta olímpica, e você ainda reclama da vida?

A verdade é que passamos a vida inteira querendo alcançar nossos sonhos, e títulos como esses, em um país como o Brasil, vêm carregados com uma dose de coragem, perseverança e muita resistência para superar todas as adversidades de ser atleta em um lugar que não te dá condições para prosperar. Além das dificuldades de acesso a educação, saúde, emprego e esporte, ainda vivemos nos comparando às nossas primas doutoras, a nossos amigos CEOs, aos nossos parentes distantes que conseguiram tudo que nossos pais sonharam para nós. A internet virou aquela tia do Natal, que insiste em perguntar sobre sua vida, sem nunca esquecer de comentar como fulano-de-tal está bem melhor que você. 

Aos 13 anos, se vocês querem tanto saber, eu estava no ensino fundamental, aprendendo a tocar bateria, e nunca virei baterista profissional – desisti no ano seguinte. Mas se eu quisesse ser baterista, meus pais não tinham dinheiro para comprar uma bateria nova, porque os salários de jornalista e funcionário público não pagam bem. Então, meu banco de madeira que servia para os ensaios seria como a prancha de isopor de Ítalo: um totem de “superação”, que na verdade é um grande símbolo de um país que falhou com suas gerações de talentos. Hoje eu sou mestranda e tenho uma carreira acadêmica muito deficiente, porque, sem bolsa, não tem como deixar de trabalhar. E conciliar mestrado com trabalho, uma pandemia mal combatida e contas para pagar, como eu teria tempo para ser atleta olímpica, por exemplo? Pois é, Charlotte, você talvez não seja um ponto fora da curva, mas uma cidadã extremamente privilegiada.

Ah, e eu tenho 30 anos. Tenho vários amigos super bem sucedidos, alguns filhos de amigos dos meus pais passaram em grandes concursos e têm estabilidade financeira, tenho alguns conhecidos muito mais novos que também já conquistaram bem mais do que eu. Mas a minha jornada é só minha, e só eu sei o que eu tenho que enfrentar para chegar até aqui. Eu posso não ser doutora e medalhista olímpica, mas me sinto vencedora por estar prosperando em um país que insiste em me colocar sempre no último lugar do pódio.

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