Passando o cartão pra não passar raiva

Por: Beatriz Pêgo, colaboradora do Nossa Fala

Manter a sanidade e o bem estar mental virou praticamente um privilégio diante do contexto atual caótico que estamos vivendo. Como não estamos tendo muitas oportunidades de ter experiências leves e gratificantes, para aliviar essa tensão, por conta da pandemia, tivemos que encontrar novas formas capazes de reproduzir uma sensação boa e feliz nas nossas rotinas diárias.

Uma sessão de yoga, meditação, cuidar das plantas ou cozinhar são algumas saídas que encontramos. Mas, sem dúvida alguma, uma das principais coisas que nos proporcionam esse sentimento de felicidade instantânea é o ato de comprar.

Todo mundo já deu ouvidos àquela voz no subconsciente que te diz “vai compra, você merece, nem é tão caro assim”. E com o “boom” das compras online, essa voz deixou de ser apenas um sussurro e se tornou um grito.

Apesar de refletir muito sobre as minhas formas de consumo e como posso ser mais consciente, já perdi a conta de quantas vezes enchi um carrinho de uma loja (roupas, sapatos, livros, cosméticos, objetos de decoração, e uma lista gigante de coisas) só para ter o sentimento e a excitação de adquirir algo novo. Às vezes finalizo a compra (a fatura que lute), mas na maioria das vezes, em um breve lapso de sanidade que tenho, me pergunto se realmente preciso disso agora e abandono aquele carrinho. Já cheguei a emitir boletos que nunca foram pagos, tudo por conta do calor do momento, e sei que muitas pessoas também são assim.

O que me leva à reflexão que trago neste texto: de onde vem esse impulso consumista que não é uma necessidade genuína de comprar?

Seria uma maneira de preencher um vazio? É uma comprovação de um marketing bem feito pelas marcas que realmente estão nos convencendo a comprar? É apenas tédio? É dinheiro sobrando na conta? É apenas curiosidade? Ou uma forma de sermos gentis com nós mesmas? Talvez todas as opções. Mas uma questão é certa: estamos apenas tentando ser um pouco felizes, mesmo que por um milésimo de segundo.

A verdade é que esse impulso e essa vontade de comprar algo que não estamos precisando nos faz confundir felicidade com prazer. O prazer está ligado a sensações à flor da pele e pontuais, que duram por um período curto de tempo. Aquele momento que você enche o carrinho até um determinado valor só para conseguir o frete grátis ou compra só porque tem um cupom de desconto é apenas um prazer efêmero que logo, logo vai passar.

O ciclo do consumo não tem fim. Não importa o que você compre, sempre vão ter coisas novas e melhores que você ainda não tem. Por isso, mesmo sendo prazeroso comprar o seu “mimo”, depois de um tempo você vai se sentir frustrada por não ter o que há de mais novo.

Felicidade é um jeito de viver que se constrói a longo prazo, é muito diferente do prazer. Não é errado comprar algo que gosta, pelo contrário, o seu cérebro agradece a dose de dopamina (hormônio da felicidade associado à sensação de recompensa), desde que seja feito de maneira consciente e que você saiba que aquilo não vai preencher um vazio ou te satisfazer por completo.

Se não pararmos de idealizar felicidade em bens materiais, não há fatura de cartão que aguente!

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