O que o corpo nos diz?

Por: Vitória Quirino

Com certa frequência, tenho lido e ouvido queixas das pessoas sobre os impactos na saúde do corpo devido às mudanças nas várias áreas das nossas vidas nos últimos tempos. No campo do estudo e trabalho, o virtual e o remoto revelaram a privacidade dos lares que passaram a dividir seus espaços com as salas de aula, escritórios e consultórios, e a conviver harmônica ou forçosamente com guarda-roupas, sofás, mesas de jantar, estantes, livros, plantas e obras de arte. Os conhecidos ambientes de estudo e trabalho, auditórios, salas de reunião e do cafezinho, elevadores e estacionamentos cederam lugar aos afetivos cômodos e mobílias das casas e apartamentos.

A necessidade do uso prolongado das telas para aulas e cursos, trabalhos e reuniões, ou ainda como meios de interação e de lazer, impôs dinâmicas diferentes às rotinas das casas e ritmos desconhecidos às funções do corpo. Ele – o corpo – acostumado a cumprir uma das suas funções básicas, a atividade, a estar por horas em deslocamentos, entre idas e vindas, percorrendo  diariamente distâncias variadas, se ressente da falta: de movimentos, de distâncias, de tempo e de limites entre o familiar e o acadêmico, o caseiro e o profissional. 

O ir e vir por diferentes paisagens e com estímulos variados foram substituídos pela limitação de movimentos e pela permanência prolongada na postura sentada, nos mesmos ambientes, algumas vezes adaptados para as atividades acadêmicas ou profissionais que se seguem ao longo dos turnos, dos dias, semanas e meses desse ano pandêmico. E estando privado de uma das suas principais funções – o movimento -,  as estruturas do corpo, e em especial, as da coluna vertebral, se ressentem em forma de tensão muscular, encurtamentos, dor… que surgem como sinais a alertar que a atividade corporal e a alternância de posturas são chaves para o bem-estar físico e mental.

Como nos cômodos de uma casa, a coluna é o eixo de sustentação do corpo e o seu funcionamento saudável requer os devidos cuidados com a saúde dos músculos, vértebras e demais estruturas e articulações. Os quadros dolorosos intensos, sejam eles agudos, que duram pouco tempo, ou os crônicos que se arrastam por semanas, precisam de ajuda especializada para serem investigados em busca de diagnósticos precisos e condutas clínicas e fisioterapêuticas adequadas. Para esses casos existem procedimentos e técnicas variadas, desde a terapia medicamentosa às orientações posturais e ergonômicas, próprios para cada pessoa em tratamento ou acompanhamento psicoterapêutico, quando necessário. 

Para os sintomas de menor intensidade que surgem e que podem estar associados às posturas inadequadas por tempo prolongado e ao sedentarismo, que geram tensões musculares e dores leves e de curta duração, os ajustes posturais e a prática de atividades físicas regulares, bem conduzidas e de forma prazerosa são medidas de autocuidado necessárias e muito eficazes. Nas várias situações de desconfortos, ter uma escuta sensível e despertar para a consciência do que o ‘corpo fala’ podem vir a ser importantes aliados das possibilidades de cuidado, beneficiando corpo e mente, que vêm sendo tão bombardeados pelas mudanças. 

Assim, quando presto atenção, sem julgamentos, nas mensagens trazidas por cada movimento feito nas várias regiões da coluna, eu posso ampliar a compreensão para o simbolismo e linguagem não verbal da coluna, e perceber a possível relação entre a dor e tensão muscular e as situações de estresse e desequilíbrios emocionais, a partir do entendimento de que “não há hierarquia na relação corpo e mente, o que se passa em um reflete-se no outro”.  

Na região cervical – a nuca -, as sete vértebras cervicais sustentam o peso da cabeça e possibilitam movimentá-la para cima, para baixo, para a direita, à esquerda e para trás. Com o movimento de deixar a cabeça cair lentamente para trás, eu posso sentir a extensão do movimento, a tensão da musculatura, e olhar para o alto e refletir: “Como eu me relaciono com o que ou com quem está acima de mim?”. Deixando a cabeça pender à frente, sentindo a flexibilidade dos músculos na região da nuca, posso contemplar: “De que forma eu vejo, sinto e convivo com o que ou com quem eu julgo estar sob os meus olhos?”. Ao girar a cabeça para os lados, posso tomar consciência da amplitude do movimento e refletir: “Como eu me sinto com as pessoas e situações ao meu redor?”. E ao girar a cabeça e olhar pra trás posso me questionar: “Como avalio o caminho que percorri para chegar até aqui?”. Por vezes, tais movimentos e a “visão panorâmica” decorrente deles permitem lembrar que com frequência posso estar aprisionada aos mesmos pontos de vista, esquecendo que “o mundo é infinitamente maior do que aquilo que podemos perceber”.

No meio das costas – na região torácica -, as doze vértebras em relação com as escápulas dão estabilidade e sustentabilidade às estruturas dessa região. Ao prestar atenção às sensações dos músculos e estruturas do meio das costas e escápulas, eu posso girar os ombros para trás e movimentar as escápulas e a cada movimento feito refletir: “Quais situações ou pessoas eu venho carregando nas minhas costas dia e noite?”. “Por quanto tempo mais eu pretendo carregá-las?”. É necessário aliviar o peso carregado nas costas com regularidade, afinal, o mundo não cabe nelas!

A região lombar ao nível da cintura conta com as cinco vértebras lombares que permitem a movimentação da parte baixa das costas, e ao girar o corpo para direita e esquerda, ao inclinar para um lado e para outro, ao tomar consciência do movimento e observar as sensações dos músculos nos movimentos feitos para cada um dos lados, posso refletir: “Eu estou tendo ‘jogo de cintura’ e exercitando o aprendizado com as mudanças que estão acontecendo em minha volta nos diversos âmbitos?”. “Como eu estou agindo diante das possíveis transformações que acontecem ou as que eu gostaria que acontecesse no campo familiar, afetivo, profissional, financeiro, na minha casa e no meu corpo?”. 

Movimentar, ativar, alongar, massagear, refletir, sentir, descobrir novos movimentos e expansões no corpo, fazer os ajustes necessários… exercitar e alinhar a coluna, a mente e o coração com a disponibilidade para ouvir e validar a partir da comunicação não verbal o que o corpo nos diz, e que pode ser parte das estratégias de convivência com as várias mudanças que os novos ritmos e tempos impõem.

Tags:

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS POSTAGENS

Menu