Não se subestima uma oportunidade de chorar

Por: Kelianny Nonato

Quase sete da noite, segunda-feira, eu já havia chegado do trabalho e estava preparando o jantar com meu esposo. Uma mensagem no celular: uma colega de trabalho me avisando que a viagem que faríamos no dia seguinte não seria no transporte e percurso já combinados. 

Chorei muito, de raiva, de tudo. Os equipamentos separados, os brindes para os clientes, a apresentação, tudo em que eu estava trabalhando há uma semana, para mim e apenas para mim, havia perdido a importância. Mudaram a rota da viagem. Chorei mais, meu marido me olhou estranho sem entender. 

Depois que me acostumei com o novo cenário, comecei a achar ridículo ter chorado tanto por algo tão superficial. Afinal, tudo estava mantido, só a rota da viagem havia sido alterada. Porque então chorei tanto? Chequei a data, não tinha nada a ver com TPM ou hormônios. Chequei a data de novo, pensei que o tempo passa tão rápido e que já haviam passado 15 dias da morte do meu primo.

Meu primo recebeu o diagnóstico de câncer e o tratamento durou só um mês. Nesse período de luta, eu falava com meu tio, ele dizia que estava tudo bem e que estava em tratamento. Na minha cabeça, uma pessoa com 28 anos, com um coração muito bom e cheio de sonhos, terminaria o tratamento na capital e voltaria para o interior onde morava. 

Quando ele perdeu a batalha de poucos dias, chorei pouco. Fiquei com aperto no peito e me sentindo mais só neste mundo. Mas estava cheia de trabalho acumulado, com o filho para criar e segui a vida. Mas segui com um buraco no peito, às vezes lembrando dele, às vezes chorando um pouquinho. Mas sem me desesperar. Porque o choro do desespero mesmo de quem sofre com um luto, esse eu não tinha derramado ainda.

Eu gostava demais desse primo, entre todos os outros, era sem dúvidas o que eu mais gostava. E eu sabia desse sentimento há muito tempo. Nós éramos parecidos no jeito, na vontade de vencer na vida pelo estudo e até na forma de levar a vida, desde pequenos. Mas nos últimos anos a gente quase não se falou. Nada tinha acontecido, mas o vínculo não era diário. Aliás, não era nem mensal ou anual. Coisas da vida adulta.

Percebo depois da perda que não vi encerrar apenas um vínculo, que deveria ser constante, perdi a oportunidade de dizer coisas bonitas e de guardar memórias com alguém que considerava muito. Não disse o que sentia, não estive presente o suficiente onde deveria e subestimei uma situação. 

Parecia incoerente chorar por alguém que não via ou buscava há anos. Foi por isso que segurei o choro por tantos dias, até o momento que uma mudança de planos fez toda uma represa se abrir: sei que sentimentos não são coerentes e vínculos são eternos, mas ambos devem ser cultivados. Subestimar isso só serve para construir portas de represas entre pessoas que se gostam e não convivem. E quando uma fatalidade impedir de continuarmos não estando com quem gostaríamos, é que vamos perceber que não se subestima uma oportunidade de viver e nem se subestima uma oportunidade de chorar porque não viveu o que gostaria.

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