A importância de uma líder e a falta que ela faz

Por: Laianna Janu

Liderar, chefiar, comandar. Verbos transitivos que remetem a uma ação que envolve pessoas em relacionamento. Guiadas por líder, chefe ou comandante. 

As palavras que nomeiam a autoridade são comuns aos dois gêneros da raça humana, porém assumiram ao longo da história um caráter sexista. O inconsciente coletivo nos remete sempre a uma figura masculina investida dessa capacidade de liderar, chefiar ou comandar. O chefe é sempre mais esperado em qualquer narrativa do que a chefe.

Não é objetivo deste texto confrontar as aptidões de cada gênero humano, que, como apontam vários estudos, vão além de uma “guerra dos sexos” entre os portadores de cromossomos XX ou XY, porque o debate já está além desse simplismo (que também pode facilmente cair na transfobia). Quero aqui pontuar aspectos da gestão do maior evento de alcance global do último século: a pandemia do coronavírus e como alguns líderes se comportaram no enfrentamento dos problemas decorrentes desse mal, fazendo um recorte de gênero em nossa abordagem.

Um gestor ou gestora é aquela figura que traz certa leveza para o trabalho, sem que acarrete numa frouxidão dos compromissos que precisam ser feitos. E líderes que são líderes não dependem de cargo, eles se impõem pelo exemplo e estão abertos para aprender mais e mais. Até aqui foram expostos apenas grandes consensos, mas agora teremos uma afirmação mais forte: mulheres são, diariamente, mais líderes. 

Trazendo os números: de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do Brasil, o percentual de domicílios brasileiros comandados por mulheres saltou de 25%, em 1995, para 45%, em 2018. Esse pulo se deve, claro, ao crescimento da participação feminina no mercado de trabalho. Contudo, o percentual só se acentuou nos últimos anos, depois da crise econômica.

Se hoje as mulheres que chefiam seus lares somam mais de 11,5 milhões no Brasil, apenas entre 2014 e 2019 esse posto foi assumido por 10 milhões delas, enquanto 2,8 milhões de homens perderam essa posição no mesmo período. De todos os domicílios brasileiros que são formados por apenas um responsável pelos dependentes, em 90,3% a responsável era mulher.

É óbvio que estes números e porcentagens de mulheres como chefes da casa não foram acompanhados em proporção para mulheres como gestoras de empresas, instituições e no governo. Ainda conforme o Ipea, só na taxa de desocupação no Brasil, em 2015, a feminina era de 11,6%, enquanto a dos homens atingiu 7,8%. No caso das mulheres negras ela chegou a 13,3%, e em 8,5% para homens negros.

Reflexos desses problemas sociais

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a insegurança alimentar subiu 43,7% em cinco anos. Os últimos cinco depois de um processo de impeachment que retirou do poder a única mulher que chegou à presidência. Mas esse retrocesso da fome foi de pelo menos 15 anos. Desde 2014, quando a insegurança alimentar começou a ser mapeada, nunca houve um número tão alto até agora, como em 2021.

E de todos os lares brasileiros impactados com a fome, aqueles chefiados por elas sofreram ainda mais. Quase 8,5 milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho no terceiro trimestre de 2020, e sua participação caiu a 45,8%, o nível mais baixo em três décadas, também segundo o IBGE.

Dentro desse universo feminino, as mulheres que chefiam seus lares passaram não somente a enfrentar mais riscos e dificuldades financeiras em decorrência da pandemia, como também sofrem uma sobrecarga mental e um maior acúmulo de tarefas devido ao fechamento de escolas e creches.

A liderança durante a crise

Uma frase muito propagada nas manifestações neste último ano, fossem elas nas ruas ou na internet, era “nem fome, nem Covid”. E o movimento negro sabiamente acrescentou: “nem bala”, fazendo referência às mortes causadas pela polícia que mais mata o povo preto no mundo e que, em maio deste ano, provocou a maior chacina da história com 28 mortes na favela de Jacarezinho, no Rio de Janeiro. 

Em meio a todos os problemas criados pela pandemia, além dos endêmicos causados pelo governo Bolsonaro, o povo quer (e deve) viver. Para tanto, a liderança que tenha o pensamento no bem estar coletivo é fundamental. E ao redor do mundo, diversos países provaram eficiência no combate à pandemia causada pelo coronavírus. Mas é fato, mulheres líderes de países tiveram melhor desempenho neste enfrentamento. 

As pesquisadoras Supriya Garikipati e Uma Kambhampati, das Universidades de Liverpool e de Reading, ambas no Reino Unido, levantaram cientificamente o que os dados empíricos já mostravam. As estudiosas decidiram comparar os países geridos por mulheres — como a Alemanha de Angela Merkel, a Nova Zelândia de Jacinda Ardern e a Taiwan de Tsai Ing-Wen — com nações de tamanho e perfil sócio-econômico parecidos. Para tanto, foi analisado o PIB per capita, população, densidade populacional e índice de pessoas com mais de 65 anos de cada nação a qual seriam analisadas. Assim, Hong Kong, liderado por uma mulher, foi comparado com Singapura, cujo governante é homem. Seguindo a mesma lógica, Taiwan foi comparada com a Coreia do Sul e a Noruega com a Irlanda. Nesses três casos, até maio deste ano, os lugares liderados por mulheres tinham menos casos e, principalmente, menos mortes que os liderados por homens com os quais estavam sendo avaliados.

É claro que os estilos de liderança não são inerentes a homens e mulheres e seus condicionamentos biológicos. Mas com as trajetórias sociais das mulheres, a forma com que são socializadas, se torna mais comum que elas sejam líderes mais empáticas e colaborativas. Assim, decisões relevantes seriam tomadas considerando mais segmentos da sociedade, e não apenas alguns. Esse enfoque traz um impacto numérico em valores e, principalmente, vidas, havendo um incentivo econômico e social diário para as gestoras poderem liderar também grandes espaços.

É um contraste gritante com a postura explosiva e a negação a fatos científicos adotada por alguns dos líderes do gênero masculino, como o presidente Jair Bolsonaro. Com ataques racistas à China, dizendo que o país havia criado o vírus para crescer economicamente na frente do mundo, Bolsonaro tentou culpar causas externas pela má gestão da crise por seu governo. Assim como Donald Trump fez ao nomear o vírus “Kung Flu”.

Acontece que Trump, meses depois, assumiu a figura de “homem de guerra” para lutar em uma batalha contra o coronavírus. Já Bolsonaro continuou (e continua) com resoluções simplistas, populistas e, claro, mentirosas, afirmando que não há pressa para a vacinação, visto que o vírus causa apenas uma “gripezinha ou resfriadinho”. Além disso, o presidente insiste em afirmar que as pessoas que já se infectaram com a Covid-19 não precisam se vacinar e, claro, que existe um tratamento precoce eficaz com substâncias como cloroquina e ivermectina – remédios e procedimentos que já foram cientificamente descartados.

Para Rosie Campbell, diretora do Instituto Global para Liderança Feminina no King’s College London, “Trump e Bolsonaro optaram por assumir uma personalidade ultra-macho. Não é codificado em sua biologia que eles tenham que se comportar assim, mas estão optando por fazer tal política extremamente individualista e machista”. Campbell acrescenta que, apesar de existirem algumas exceções – como a ex-primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher -, as mulheres são consideravelmente menos propensas a estar na direita radical populista.

De volta ao exemplo da crise pandêmica, o pronunciamento de Jacinda Ardern, da Nova Zelândia, tentando amenizar as preocupações dos pequenos sobre a comemoração da Páscoa, seria visto como ridículo para um líder de um país no passado. Ardern disse que o tradicional coelhinho da Páscoa era considerado um trabalhador essencial e teria permissão para entregar ovos de chocolate diretamente às casas. Com mais mulheres líderes, estamos percebendo, entre tantos fatos, como a política afeta as crianças.

Por que não seguir os bons exemplos?

Acontece que assegurar um bom desempenho no longo prazo poderia, agora, comprometer os interesses de grupos que buscam tirar proveito no curto prazo de toda e qualquer situação política, econômica ou social. Seria não pensar mais em si e nos seus. Ao contrário, seria enxergar vida digna e liderança a serviço de todos ou da maioria.

Mas Bolsonaro gasta mais com publicidade e distribuição de verbas para conseguir apoio parlamentar, ao mesmo tempo que corta investimento em educação e no combate efetivo da própria pandemia. Propõe aumento de salário só para si, seus ministros e funcionários do alto escalão do governo federal, enquanto deixa faltar oxigênio nos hospitais. O presidente também facilita o armamento da população sem seguir os mínimos parâmetros referendados pelos especialistas em segurança pública. Bolsonaro dificulta o trabalho do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) no combate ao desmatamento da Amazônia e tantas outras florestas nacionais. Ele ainda gasta dinheiro com a cloroquina para sua política anti-ciência, recusa 70 milhões de doses de vacina da Pfizer e promove diversas aglomerações sem o uso de máscara. Bolsonaro reduz o apoio à população brasileira, que agoniza para não morrer nem de Covid e nem de fome. E no fim de todas essas sequências de ações – além das não mencionadas – ,ele acusa de vitimismo a todos que reclamam por sofrerem os efeitos de sua política nefasta.

É preciso coragem para “puxar a responsabilidade para si” e guiar a todos de uma casa sobre a melhor forma de encarar uma crise de frente. Mas esperar “ver o que vai dar” e não fazer nada não é uma fuga. É apenas uma outra maneira de lidar com o problema. E quando esse problema atinge diretamente a possibilidade – ou a falta dela – de alguém permanecer com vida… bem, aí essa maneira de lidar é covarde.

Não é o acesso à informação e educação que faz as mulheres brasileiras, com infinitamente menos dinheiro e recursos, liderarem sua casa melhor do que o presidente lidera a nossa nação. É ter sensibilidade e empatia para fazer o seu melhor, dentro das condições historicamente determinadas. 

Tempos de crise revelam as verdadeiras lideranças e desmascaram aproveitadores que, por circunstâncias conjunturais, foram alçados a postos de comando para os quais não têm nenhuma competência. Entretanto, mesmo com toda uma população que teme diariamente pela sua vida e das pessoas à sua volta, há como fazer uma boa gestão. Assim como fez Arden na Nova Zelândia. Assim como fazem milhares de mães solo no Brasil. 

Possibilidades para o agora e para o depois

Se os tempos de crise têm algo a ensinar para o exercício da liderança é que, como disse o filósofo brasileiro Mário Sergio Cortella, “nós precisamos fazer o nosso melhor, nas condições que temos, enquanto não há condições melhores para se fazer melhor ainda”. E assim, com a previsão de volta aos tempos “normais”, mesmo que em condições bastante diversas de um lugar, região ou país para outro, notadamente devido à forma como cada um deles enfrentaram a pandemia, poderemos nos preparar para que a próxima turbulência tenha respostas rápidas e efetivas, se tornando apenas uma leve ventania. 

Só uma liderança emancipadora empodera as pessoas para sua própria liberdade, para que cada um possa assumir responsabilidades individuais e fomentar a solidariedade coletiva. Liderança que encoraja lideranças. Que compartilha poder e responsabilidades. Que está aberta ao diverso. E se nada disso for posto, que o coletivo se sobreponha ao individual. Portanto, como aponta a filósofa brasileira Lélia Gonzales: “nosso lema deve ser: organização já!”, para que “possamos ir à luta e garantir os nossos espaços que, evidentemente, nunca nos foram concedidos”.

Ressalta-se ainda que esse enfoque na liderança em busca de bons resultados só acontecerá se for baseado nos princípios básicos de educação com pensamento crítico, humildade e sensibilidade, essenciais para o desenvolvimento de uma boa gestão com exemplo e motivação, empregando, literalmente, motivos em cada ação. Assim como já provam ser possível as mulheres líderes.

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