Quando eu percebi que estava em um relacionamento abusivo emocional 

Por: Gracielle Araújo

“Eu me pergunto por que as mulheres continuam no relacionamento. É escolha dela continuar com o cara”. Escutei essas indagações feitas por outra mulher durante um papo sobre nossas escolhas. A discussão me fez lembrar de uma história minha sobre um relacionamento abusivo emocional que eu passei e como foi difícil sair da relação. 

O ano era 2017. Nesse dia, eu não queria sair, mas fui convencida pelos meus amigos. Coloquei um vestido azul, um batom vermelho e uma sandália daquelas que não são altas e nem baixas, sabe? E fui para um barzinho. Lá encontrei um cara que eu nunca imaginei ficar. Depois de umas cervejinhas fiquei mais solta e “alegre”, dancei, ri, e para mim, a noite ia acabar ali. Quando eu menos espero, Léo – o cara que eu nunca ia ter nada – , me puxa e me tasca um beijão! Nossos amigos em comum não viram e ele os convenceu a ir me deixar em casa. Depois desse dia, as coisas ficaram intensas (ou seria tensa?!) entre a gente e me vi em um relacionamento abusivo.

Eu fiquei com Léo incontáveis vezes. Ele me fez ir às estrelas, literalmente! Eu gostava muito de estar perto dele e em pouco tempo estava apaixonadíssima. No início, eu não percebia que as suas atitudes estavam me causando mal. Só vim perceber dois anos depois e mesmo assim ainda demorei mais dois anos para sair completamente da relação.

Ainda em 2017, eu saí com ele e seus amigos para um forró. A gente não tinha assumido nenhum relacionamento e eu o vi dançando com outra mulher. Ele não tinha me chamado para dançar e não tenho problemas com isso. Léo me deixou sozinha com amigos e um deles estava querendo ficar comigo, além disso estava flertando com a mulher. Fiquei estarrecida, peguei o Uber (nessa época já tinha em João Pessoa) e fui embora. Os amigos dele perceberam a minha chateação, queriam me deixar, mas não aceitei pois não queria mais falatório. Ao chegar em casa, Léo me liga e diz que eu o “deixei na mão”, que eu vi coisas onde não tinham e que não ia mais ficar comigo. Eu comecei a chorar, solucei na ligação, me desculpei e pedi para que continuássemos ficando, o que ele negou. Depois de um mês voltamos a ficar novamente. E continuamos numa espécie de relação ioiô por mais alguns anos.

Eu nunca escutei elogios sobre o meu trabalho, sobre quem eu sou. Também não escutei nenhuma palavra de apoio quando explicava um projeto e a vontade de mudança. Pelo contrário, ele falava que por conta de minhas atitudes, não ia conseguir outras coisas. Sempre me deixava mal e eu ficava me questionando. As suas palavras faziam me sentir incapaz e insegura. Hoje eu sei que suas palavras tinham o intuito de me deixar emocionalmente dependente dele e com medo de sair do relacionamento.   

Além de não assumir o que a gente tinha, quase todas as vezes que ficamos era quando ele queria. Não me perguntava se eu podia, se eu estava trabalhando. E se eu desse uma negativa, já recebia “tá muito difícil te ver”, “deixa pra lá” ou um “depois nos falamos”. Eu me sentia usada. Léo também reforçava que o que nós tínhamos “era intenso” e que eu não ia “encontrar com ninguém mais o que sentíamos”. A violência se tornou um ciclo que eu não conseguia sair.

Em 2019, eu tomei a coragem de terminar tudo. Expliquei meus motivos e que não estava me fazendo bem continuar. Ele disse “ok”. Mas não foi o fim. Depois de algum tempo, ele começou a me perguntar como estava, conversar comigo, falou que estava com saudades e me chamou para sair: ele mudou, eu pensei, então vou dar mais uma chance. Continuava apaixonada e colocava a culpa no meu coração bobo.

Ele não havia mudado, apenas tinha colocado uma carcaça para que eu visse só coisas boas. Continuou sem me apoiar, sem me escutar e se ele perguntava como estava, era com segundas intenções. Fui aos poucos diminuindo o ritmo de conversa e com um medo enorme de não conseguir sair, de voltar novamente. Também tive medo de sair e ele querer fazer algo comigo. Minhas amigas sempre me apoiaram e me ajudaram nesse processo, mas teria que ser eu a terminar antes que piorasse ainda mais. Depois de anos, consegui sair do relacionamento.

Eu fui manipulada por muito tempo. Ele me fazia acreditar que eu não seria capaz de ter meus projetos, de ter o futuro que eu queria. Ele interferiu nos meus sonhos e no que eu acreditava. Quando eu indagava sobre uma paquera que ficava sabendo, era taxada de louca. Dizia que eu estava “dando show”. Eu pedia desculpas. Voltava para o início. Eu pensava que ele ia mudar e que ficaria tudo bem.

Hoje eu me pergunto como pude continuar com ele. Mas eu não posso me culpar. É difícil sair de um relacionamento abusivo emocional. Quando você está com a pessoa, pensa nas coisas boas, que ela vai mudar e vai dar mais uma chance. E essa chance vai se tornando mais de uma, se torna várias. Você fica e não consegue sair. Pensa no futuro e que no fim tudo vai ficar bem entre vocês. E que, mesmo que ele tenha feito algo que você não tenha gostado, é normal. Eu procurei ajuda para me libertar. E todos nós devemos falar com quem a gente confia.

Os abusos psicológicos são uma forma de relacionamento abusivo e as mulheres não identificam por estarem enraizados na sociedade machista em que vivemos. A violência aparece de inúmeras formas, seja ela psicológica, física, sexual e financeira. De acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) das Mulheres, no período entre abril de 2019 e março de 2020, 243 milhões de mulheres e meninas (de 15 a 49 anos) em todo o mundo foram submetidas à violência sexual ou física por um parceiro.

As mulheres não percebem o abuso psicológico e pensam que é normal. Não enxergam o quanto estão sendo manipuladas. Não culpem as mulheres, não pressionem, liguem para a polícia se presenciarem uma briga. Se metam! Ajudem! Perguntem como ela está, conversem com ela, ofereçam suporte. Não as desamparem. Estejam ao seu lado, pois elas vão precisar de apoio.   

Também não julguem outras mulheres. Vocês não sabem o que elas estão passando. Eu escuto muita gente falar, inclusive próprias mulheres, dizendo que a culpa foi dela por ter permitido e ter continuado no relacionamento. Mas a gente tem que considerar vários fatores: muitas vezes ela não percebe, além da dependência emocional e afetiva. Não é fácil sair de um relacionamento abusivo, seja ele qual for. Eu já passei por isso, tinha consciência, mas foi muito difícil sair da relação.

Por isso, é importante que a gente fale sobre o assunto e, se a mulher te procurar para conversar, dê apoio, ajude a sua amiga a perceber. Também mandem textos, vídeos para que ela entenda que está em um relacionamento abusivo. Temos que nos apoiar. Sempre. Não vamos deixar nenhuma outra mulher ser silenciada.   

Fonte dos dados:

Violência contra as mulheres e meninas é pandemia invisível, afirma diretora executiva da ONU Mulheres. Link para acesso: https://www.onumulheres.org.br/noticias/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres/

 

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