Salve a pessoa idosa

Por: Vitória Quirino 

O respeito e a valorização da pessoa idosa podem ser identificados de diferentes formas e nas diversas culturas. “Quando morre um africano idoso é como se queimasse uma biblioteca”, assim é dito pelo poeta Hampaté Bah, do Mali, mostrando o valor dado às pessoas mais velhas na cultura africana, sendo essa também a compreensão difundida entre os povos indígenas. Pela sabedoria acumulada, as pessoas idosas são as mais respeitadas em suas comunidades. Cabe a elas o lugar de honra, por serem as guardiãs das tradições, memória, linguagem, costumes, valores, práticas religiosas, medicinais e da relação com a natureza, sendo elas as legítimas representantes do seu povo. Às pessoas mais velhas cabe a tarefa de zelar, preservar e consolidar todo o conhecimento vindo através da sua ancestralidade e por elas mesmas adquirido ao longo da vida, a fim de repassar para as gerações mais novas, sendo por elas reverenciadas. 

Como um lamentável contraponto à cultura de honra, respeito e valorização da pessoa mais velha, nas sociedades ocidentais e especialmente no Brasil desses tempos de pandemia, a realidade mostra o aumento crescente do número de denúncias de violência registrado no ‘Disque 100’ (Disque Direitos Humanos). Nos três primeiros meses de 2021 foram registrados cerca de 34 mil casos de violações dos direitos humanos contra a pessoa idosa.

Criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa em 2006, o dia 15 de junho, Dia Mundial de Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa, desperta para a conscientização e responsabilidade do papel de todos para a construção de uma sociedade que respeite os direitos garantidos pela legislação vigente para a população 60+. 

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), são consideradas situações de violência contra a pessoa idosa as ações ou omissões cometidas uma ou muitas vezes, comprometendo a integridade física e emocional da pessoa e impedindo o desempenho de seu papel social. 

Os diversos tipos de violência podem ser explícitos, como a violência física com agressões, maus-tratos, negligências e abandonos; a violência psicológica, com humilhações, hostilizações e xingamentos. Além dessas, a violência financeira, com o envolvimento em golpes, negação do direito de gerenciamento do seu dinheiro, desvio do salário para o benefício de outras pessoas, vandalização e destruição de bens, tem destaque nos casos denunciados. Os vários tipos de violência ocorrem comumente nos ambientes domésticos, nas relações cotidianas e de convivência regular da pessoa idosa, com familiares, cuidadores e trabalhadores.

A violência velada é praticada a partir do preconceito com as pessoas mais velhas e pode ser chamada de ageísmo, etarismo, idadismo ou ainda de velhofobia. O preconceito se revela quando as pessoas idosas são expostas a brincadeiras sem o seu consentimento, quando são rejeitadas, invisibilizadas ou desrespeitadas em suas falas, opiniões e capacidades de escolhas, sendo praticado até de forma inconsciente por elas mesmas, ao deixar de fazer o que querem ou gostam de fazer por receber repetidas afirmações de que são velhas demais para ter projetos de vida, sonhos e desejos.

Para a prevenção da violência contra a pessoa idosa por parte dos gestores no âmbito federal a partir da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, as ações até agora divulgadas para o combate a esse expressivo número de casos de violência parecem ser insuficientes e pouco efetivas para a complexidade das questões envolvidas. As ações apontam para a sensibilização de gestores municipais para formação de Conselhos Municipais de Direito da Pessoa Idosa, para a capacitação de gestores municipais e conselheiros, visando um possível fortalecimento da rede de proteção. Como nas demais medidas de combate aos diversos tipos de violência nos diversos níveis, que infelizmente se alastra pelo país, o que se constata é a ineficiência na elaboração e efetividade das políticas públicas destinada às áreas estruturantes. 

Como possíveis estratégias de prevenção, minimização ou enfrentamento da violência contra a pessoa idosa, podemos intencionar que as ações sejam pautadas e discutidas com o respaldo das pesquisas sobre o tema, feitas por pessoas estudiosas das várias áreas do conhecimento, que haja o engajamento de toda a sociedade, com a devida e crescente valorização do processo de envelhecimento, a começar pela própria pessoa idosa, a partir das demandas sentidas por quem vivencia a realidade do envelhecimento e da compreensão das mudanças ocorridas com o tempo que passa, incluindo a dimensão subjetiva do envelhecer, que o caracteriza como uma fase da vida com seus desafios e aprendizados, perdas e ganhos, assim como em outras fases. 

A partir das diversas campanhas veiculadas pela mídia em geral para o respeito à vida humana e de todos os seres em sua diversidade, nutro a esperança de que haja cada vez mais a valorização da ancestralidade, com o respeito ao caminho trilhado por quem veio antes, a conscientização da população em geral e em especial das pessoas que convivem com outras mais velhas, acerca das peculiaridades de cada pessoa que envelhece, para que assim a garantia plena dos seus direitos seja respeitada e que qualquer forma de violência seja denunciada, combatida e devidamente punida. 

Que haja mais investimento nas ações educativas e intergeracionais, o fortalecimento das redes de apoio com a qualificação dos profissionais e trabalhadores em geral para o atendimento digno à população idosa, o exercício coletivo do zelo e respeito nas relações cotidianas com as pessoas mais velhas, a acessibilidade das pessoas idosas aos diversos espaços e equipamentos públicos ou particulares que promovem a integração e socialização, o acesso aos diversos níveis de complexidade da atenção, para que assim cada pessoa idosa possa vir a ser honrada e ter a garantia do direito de exercer o protagonismo da sua vida merecidamente conquistado por sua história, desejos e sonhos ao longo dos muitos anos vividos.

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