Os desafios são diferentes, mas a luta segue a mesma

Por: Kelianny Nonato

Minha avó não usava calça comprida, de jeito nenhum. Usava sempre uma saia com anágua por baixo. Não importava se estava chovendo ou era seca, se ela estava arrumando a casa ou indo ao mercado, sempre usava saia. Ela dizia que era assim que as mulheres faziam na época dela e ponto. 

Um dia, nos seus últimos meses de vida, ela disse que estava com frio nas pernas. Alguém sugeriu que ela vestisse uma calça e lhe deram uma calça legging de mainha pra vestir. Já era começo dos anos 2000, as filhas dela sempre usavam calças, as netas e as sobrinhas também. Ela já entendia que calça não era mais uma coisa “só de homem”. 

Por causa do frio que estava sentindo, vestiu a calça, andou até a porta disse “sou bem feita de perna” e uns 15 minutos depois ela voltou pra saia “né pra mim não”. Eu tinha 13 anos, mas fiquei pensando que ela não quis a calça porque passou a vida toda ouvindo que mulher tinha que usar saia. Lembrei também que ela já tinha contado que uma vez foi vestir uma calça do irmão para ir a roça e levou uma surra de vara por causa disso.

Minha avó era muito forte, teve 8 filhos, separou do marido porque não aguentava traição, trabalhou muito pra não passar fome e sofreu calada as dores fortes do câncer. Quer dizer, sofreu calada para os outros, porque eu ficava deitada debaixo da rede e sabia quando ela estava se contorcendo de dor. Sabia também que quando a levava ao banheiro, ela ia pedir pra não falar pra ninguém daquele sangue. 

Mas minha avó não tinha “coragem” de usar calça.

Eu não entendi na época porque ela preferia o “frio nas pernas” ao conforto. Hoje tenho certeza que era porque aquela legging marrom representava a sociedade e isso pesava muito.

Eu sei disso porque eu também tenho “as minhas calças”. Há dias que eu sou uma mulher tão forte quanto a minha avó e enfrento qualquer dor. Mas aí alguém me vê dividindo as tarefas de casa com meu marido e a sociedade, representada por um comentário de uma conhecida, me diz “ele vai arrumar alguém que faça as coisas por ele”. Ou ainda quando estou numa reunião de trabalho e alguém se acha no direito de interromper e descartar as opiniões minhas ou de uma colega, como se não fôssemos relevantes. Ou até nas minhas memórias quando um rapaz terminou o antigo relacionamento e em seguida veio ficar comigo, mas eu que recebi a culpa por “destruir uma relação de anos” que nem eu tinha conhecimento.

Assim, como minha avó, eu sei que o que acontece comigo e com minhas amigas hoje já está sendo superado por outras mulheres. Mas aquele medo de levar novamente “a mesma surra de vara” que levou antes é o que nos limita na maioria das vezes. 

Ser mulher não é fácil, não foi na época da minha avó e continua não sendo hoje. Tem horas que não tenho esperança de que seja fácil ser mulher um dia. A sensação que tenho é que nunca vamos parar de lutar, que os obstáculos são os mesmos e só mudam de cara. E que a gente não pode deixar de lutar e enfrentar todas as dores que esse mundo injusto e preconceituoso nos trouxer. No final, quem sabe um dia, vestiremos as calças que a gente bem quiser. 

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