Como os outros veem minha solitude

Por: Gracielle Araújo

Meu coração está acelerado. Eu me pego pensando em várias coisas e não sei por onde começar. Respiro. Sento e analiso quais são as minhas prioridades. Vários questionamentos passam pela minha cabeça: onde foi que eu errei? Por que isso só acontece comigo? Eu gosto do sofrimento? 

Essas perguntas surgem após mais um fim de uma ficada ou início de romance. Elenco minhas qualidades: bonita, inteligente, gosto de conversar, não votei no 17, mas mesmo assim sou aberta a discussões e independente. Paro. Será que o ser independente e inteligente, que são qualidades que eu penso ter, afastam os homens com quem eu cogito ter um relacionamento mais sério? Será que esse pode ter sido o motivo? Não, não pode ser. O último cara que eu fiquei foi muito atencioso, carinhoso, um verdadeiro romântico. Eu devo ter feito algo errado. Mas o que poderia ter sido? Indago mais uma vez. 

Continuo analisando o fim do flerte, que durou poucas semanas. Será que ter aprendido a gostar de mim e a valorizar os meus momentos em que fico sozinha interferem nos meus relacionamentos? Tudo fica claro para mim e tento me acalmar. Às vezes, o parceiro não compreende a importância dos momentos em que ficamos sozinhas e da forma como vemos o mundo, fazendo com que a relação seja afetada. A partir do momento em que você souber da importância de estar consigo mesma, sempre vai querer ter esse tempo para si. Porém, tem muita gente que ainda não compreende e faz julgamento.

Desde muito cedo aprendemos que para sermos felizes e completas precisamos estar com alguém, casar e ter filhos. A sociedade patriarcal já impõe isso na gente desde criança. Mas não precisamos de outrem para ser 100% felizes, para completar a nossa felicidade. Eu aceitei a minha solitude. Quantas vezes minha mãe dizia para mim que eu precisava me casar e ter filhos? Hoje ela mudou essa concepção depois de muita conversa.

Eu lembro das reuniões em família ou até mesmo aquela visita no bairro em que passei a infância e que sempre perguntam: já casou? E quando respondo que não, continuam: ah, mas você é tão bonita, como pode ficar sozinha? Como se a felicidade dependesse exclusivamente de um companheiro. 

Essas pessoas são tão insistentes que ainda tiram conclusões precipitadas e já definem o seu futuro: como você vai ter filhos? Você vai morrer sem ninguém se ficar assim. Lembra da sua tia Maria que morreu sozinha, sem marido? 

Tentava me esquivar da resposta ou respondia que estava bem sozinha, mas já recebia aquele olhar de esgoelar que dizia mais do que qualquer palavra. E isso ficava no meu subconsciente sempre que começava a sair com um cara e não dava certo. As redes sociais também contribuíram para o meu questionamento: se eu me acho tão bacana e propensa a ter um bom relacionamento, por que estou sozinha? Nenhuma dessas perguntas teriam passado pela minha cabeça se não fosse a pressão da sociedade, que dita o dever de procriação da mulher e que ela deve se casar para mostrar que a felicidade existe apenas quando você tem um companheiro.

Recentemente, desabafei com um amigo sobre o assunto e ele me ajudou a me enxergar. Teve um momento que eu passei a questionar se eu era a peça que precisava ser consertada. Mas eu não preciso. Eu não posso colocar a culpa em mim de um relacionamento que não durou. Não tem nada de errado comigo, eu não sou o problema.

Eu passei um bom tempo para me compreender e aceitar quem eu sou. Às vezes sou mais introspectiva, sarcástica e me amo. Eu gosto tanto da minha companhia, de fazer atividades sozinha (beber, assistir filmes), e hoje admiro a mulher que eu me tornei. 

Quando essas perguntas surgem, elas já estão no meu inconsciente e acabo acreditando nas pessoas que já previram meu futuro. Penso que eu estou fadada a ser infeliz por não ter um marido e nem filhos. 

Só que depois eu entro nos eixos novamente. Eu gosto da minha solitude. A minha felicidade não é dependente de outra pessoa. Não preciso ter um homem na minha vida para ser feliz. Não penso em ter filhos agora. E também não acho que vai suprir alguma lacuna que possa a vir existir na minha vida. Um dia eu posso querer ter filhos? Posso. Porém esse dia não é hoje. 

A solitude é diferente de solidão. Para mim, a solitude é saber apreciar momentos com você. Quem nunca pensou em fazer algo diferente do parceiro em um relacionamento? Por exemplo, assistir um filme e comer brigadeiro sozinha, sem a companhia do namorado e até dos amigos. Você também pode apreciar a solitude e depois compartilhar com seus amigos os momentos. Para me descobrir comecei a ir para cinemas sozinha, além de fazer viagens. A sensação de liberdade e independência é indescritível. As emoções que eu senti, o que vivenciei, foram compartilhadas com meus amigos e familiares. Já a solidão é um estado que causa dor e sofrimento. 

Confesso que foi difícil começar a ir assistir filmes sozinha. Eu me sentia um peixinho fora d’água quando via que a maioria tinha acompanhante. Mas parte disso é devido ao que a sociedade prega e que interfere nas nossas atitudes e conhecimento: ela nos mostra que para termos êxito em qualquer âmbito da vida, precisamos ser extrovertidos, e, pessoas que apreciam ficar sozinhas mesmo que seja em alguns momentos, já são chamadas de “diferentes”.   

Seja adepta da solitude! Seja você que está em um relacionamento ou que está solteira, mas que deseja fazer uma autorreflexão. Passe a apreciar momentos com você para autoconhecimento. Uma das experiências que eu sempre recomendo para reconectar consigo mesma é uma viagem sozinha (depois da pandemia). Se acha improvável que vai sair por aí desbravando os lugares sozinha, pode começar por algo mais simples, como ir para um café e ler um livro sozinha. A solitude é uma forma de reconexão.

Eu tenho que me lembrar, reafirmar constantemente, porque as pessoas me fazem acreditar que eu estou errada. Eu me amo. Amo cada imperfeição, cada desejo de mudar, minhas qualidades. Eu aceitei que não sou perfeita e que tenho, sim, defeitos, mas eles não definem quem eu sou. É o conjunto. E tive que aprender que ninguém é perfeito. Aprendi a compreender, a melhorar. E estou em constante evolução. 

Tenho várias perguntas sem respostas ainda sobre mim. É um processo longo e são os meus momentos de solitude que irão fazer que eu consiga as respostas ou o caminho para a descoberta. O ser diferente não é bem aceito na sociedade, mas padrões foram feitos para serem quebrados.

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