Entre a alegria e a tristeza

Por: Marcela Quirino

Eu tenho uma amiga que fala um negócio genial: ela diz que se programa pra ser feliz. Ela conseguiu traduzir em palavras uma estratégia que há muito tempo eu pratico (e, provavelmente, você também). Sabe quando você tá naquele baixo astral mas está se aproximando do final de semana? Do churrasco com os amigos? Do show da banda preferida? Então, é hora de se programar pra ser feliz! Foi exatamente isso que aconteceu nos últimos dias, quando, em meio a uma pandemia que suga até a última gota da nossa saúde mental, eu senti se aproximar a final do BBB. Programei minha felicidade. Comprei cerveja e tira-gosto. Vesti aquela camiseta que diz pra lutar como uma nordestina. Me preparei para comemorar a vitória de Juliette. Quando de repente chega a notícia: se foi Paulo Gustavo.

A noite dessa terça-feira resume bem como tem sido esse último ano. A gente não percebe onde termina a alegria e onde começa a tristeza. A gente não sabe se sorri por Juliette ou se chora por Paulo Gustavo. A gente não entende como podem dois sentimentos tão opostos se misturarem com tanta audácia. Ei, querida Alegria! Alô, dona Tristeza! Que tal vocês aparecerem em momentos diferentes, hein? Minha vida já tá tumultuada demais pra ainda ter que administrar os meus DivertidaMente assim, justo na hora do meu escape mental. Mas ok, confesso que eu consigo manter um certo equilíbrio bipolar. De um lado, razão. Do outro, emoção. No meio, eu. Eu e a minha percepção de que o que a vida quer da gente é isso: a disposição pra encarar os nossos sentimentos de frente, sejam eles quais forem.

Existe uma citação clássica que diz que o oposto do amor não é o ódio, mas sim a indiferença. Isso me fez cogitar que talvez o oposto da alegria não seja a tristeza, mas sim a realidade. É que é preciso que ela nos jogue um balde de água fria pra que a gente pare e pense: eita, talvez eu esteja triste. É preciso um choque de realidade pra que a gente sinta o peito doer. Pra que a gente sangre. Pra que a gente chore. É preciso aterrizar na vida real pra enxergar que ela está cheia de feridas – e se tinha uma coisa que Paulo Gustavo fazia, era curá-las com seu humor. Com seu amor. O legado de Paulo nunca foi sobre tristeza, mas sim sobre manter o sorriso no rosto apesar da realidade nossa de cada dia. Apesar do preconceito. Apesar da opressão. Apesar da desesperança.

É por isso que aqui, nessa crônica confusa sobre sensações contraditórias, eu não quero atribuir sentimentos a pessoas. Não vou colocá-las em caixinhas. Não vou distingui-las com rótulos. A vitória de Juliette não fala só de alegria. A partida de Paulo Gustavo não fala só de tristeza. Os dois protagonistas da noite vieram pra nos mostrar o que, no fundo, a vida é: essa mistura agridoce de sorrisos e lágrimas. Viver é se programar pra ser feliz e talvez não conseguir. Tipo entrar no cinema pra assistir uma comédia e sair com a cara inchada de tanto chorar – das coisas pelas quais Paulo Gustavo fazia a gente passar. Viver é assistir a um espetáculo sem release, sem roteiro, sem saber o que vem pela frente. Viver é saber apenas aproveitar o espetáculo. E aplaudir incansavelmente quem está em cima do palco.

Um viva à conquista de Juliette.

Uma salva de palmas à trajetória de Paulo Gustavo.

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