Tempo de acolhimento

Por: Vitória Quirino

Estamos vivendo um tempo de mudanças impostas pela pandemia, que tem impactado as nossas vidas, a dos animais e demais seres vivos de forma mais ou menos significativas, transformando as rotinas pessoais, afetivas, profissionais, acadêmicas, as práticas de atividades físicas, religiosas, de lazer com amores, familiares, amigas e amigos e as programações que por muito tempo foram planejadas e desejadas. Tudo precisou e precisa ser adiado por tempo indeterminado. 

Em um ano, o afloramento das emoções e sentimentos variados, como o medo, a tristeza, a raiva, as inseguranças, incertezas e impotências de várias ordens, se somou à necessidade da luta pela vida e da garantia de direitos como à saúde, em seu sentido mais amplo, incluindo tudo o que no momento a ela esteja relacionado, como o atendimento aos protocolos de segurança, a defesa de um programa de vacinação sério, para todas as pessoas e no tempo que urge, o suporte adequado para a realização de testes e exames, medicamentos, insumos, equipamentos e leitos hospitalares, quando e se necessário for. 

Ainda há que se persistir na luta pelos diversos direitos constituídos como a alimentação, habitação, trabalho, educação, rede de apoio, assistência social, transporte, cultura, lazer; e somando a tudo, as diversas mudanças exigem esforços individuais e coletivos no convívio familiar e nos espaços de convivência a fim de que sejam garantidos humanização, respeito e dignidade. 

No campo da saúde, a Política Nacional de Humanização considera que o acolhimento deve estar presente em todos os momentos dos processos de atenção à saúde, com o olhar e escuta atentos tanto para os usuários quanto para os trabalhadores da saúde, os que estão em confronto diário com as tantas incertezas da pandemia. Para os tempos atuais, o acolhimento pode extrapolar os espaços de saúde e se constituir como uma prática de autocuidado e cuidado mútuo.

Entre os vários conceitos atribuídos ao termo “acolhimento”, encontramos “ato ou efeito de acolher; recepção, atenção, consideração, refúgio”. Por sua vez, acolher significa: “dar acolhida ou agasalho a, dar crédito a, dar ouvidos a, atender a, admitir, aceitar tomar em consideração, oferecer proteção ou conforto físico, hospedar, ter ou receber (alguém) junto a si, admitir, aceitar, levar em consideração”. 

O acolhimento desperta a percepção para as opiniões, informações, emoções, sentimentos e experiências vividas e partilhadas, que podem ir além das palavras ditas ou escritas, para a observação dos gestos e sinais transmitidos pelas expressões faciais, postura corporal, para o toque, para a percepção das distâncias impostas ou intencionais, e até para os silêncios. 

Nesses tempos difíceis, nos acolher, de todas as formas possíveis, e acolher as pessoas em nossa volta, desenvolver atitudes acolhedoras nos desafios do cotidiano e das relações através das falas e escutas qualificadas, pode validar essa importante tecnologia do encontro, da empatia, da criação de vínculos e união de esforços em tempos onde as resoluções imediatas nem sempre são possíveis. Em seus diversos sentidos e interpretações, acolher nos remete a ações de aproximação, a ‘estar com’, ao exercício da presença, e esse pode ser mais um dos desafios e necessidades atuais, a fim de exercitar a esperança de que tempos melhores virão e para eles haverá o nosso melhor acolhimento.

 

 

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