Mulheres, Territórios de Luta

Por: Mariana Assef Lavez

Como forma de (re)existir, mulheres enfrentam as violências e as negações de modelos de “vida” que não foram feitos para nós. Desde seus territórios, seus corpos coletivos se unem e se fortalecem. Transcendem a luta de suas moradias e lutam por suas comunidades, pelo direito à terra e pelo direito à cidade. Subvertem o lugar que, tradicionalmente, lhes foi imposto, e desestabilizam as relações de dominação e exploração de seus corpos e territórios. 

As mulheres são a principal força social que, desde a luta anticolonial, lutaram e resistiram pelo acesso comunal a terras como fonte de subsistência e segurança alimentar, e pela coletivização do trabalho reprodutivo como uma maneira de proteger umas às outras da pobreza, da violência de Estado e da violência dos homens. Estas lutas criam uma identidade coletiva, um contra poder tanto no âmbito da casa como da comunidade. 

O que acontece em um território é diretamente sentido pelo corpo de uma mulher que faz daquele espaço morada. As mulheres têm uma relação indissociável com os territórios que habitam. Principalmente as mulheres não-brancas sentem de forma singular as lutas territoriais, pois são a extensão de seus corpos, ao vivenciarem opressões estruturais sobre suas vidas. 

Nesse sentido, existe um protagonismo feminino fundamental nas lideranças sociais e ativistas. E diante da renovação do impulso das privatizações das terras e das remoções forçadas, as mulheres continuam na linha de frente das lutas urbanas e rurais. A partir da resistência às desapropriações, protagonizam a defesa dos bens comuns e da vida. Quando são ameaçadas de remoção, não somente suas casas são atacadas, mas também as redes de apoio que foram construídas e o sentimento de pertencimento aos territórios, pois costumam ser moradoras antigas das comunidades ameaçadas e, em grande parte dos casos, chefes de famílias monoparentais.

Assim, as mulheres resistem e constroem, na coletividade, a manutenção da vida cotidiana comunitária. Por meio da mobilização de suas comunidades e da auto-organização, consolidam resistências territoriais que desafiam a divisão política e sexual do trabalho no capitalismo patriarcal e racista.

Ao romperem os limites entre o que, historicamente, foi determinado como o público e o privado, o fazer produtivo e o reprodutivo, as mulheres deslocam a política para dentro e fora da casa. É através do trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres que se movimentam economias alternativas potentes. É através do trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres que a produção de alimento saudável na cidade e no campo se multiplica e ganha força, preenchendo o prato de 70% da população brasileira. É através do trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres que crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais são cuidadas. Todas essas atividades, que ainda são invisibilizadas, são indispensáveis para a reprodução social e econômica de nossa sociedade.

O reconhecimento das mobilizações entre mulheres e de suas redes de ação territorial, a remuneração de seus trabalhos de cuidado, a visibilização das lutas cotidianas enquanto ações políticas, e seu fortalecimento institucional para a ocupação dos espaços de poder em diferentes níveis e esferas, são caminhos essenciais para a construção de territórios de vida mais democráticos, humanos e inclusivos.

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