Com que roupa você está?

Por: Kelianny Nonato

Com que roupa você está?

Parece uma pergunta das mais fúteis que se pode fazer a alguém, mas é o que falo para o meu marido todas as vezes que não o vejo sair de casa. Tem sido assim durante anos do nosso casamento. Dependendo da resposta, fico um pouco tranquila ou mais preocupada.

Ele é um homem negro e, eu sei que, um corpo negro andando por esse país não pode vestir qualquer coisa. Ele não pode carregar um guarda-chuva e tem que ter cuidado com o que leva na mochila. Se ele me manda mensagem dizendo que está no shopping e vai comprar tal coisa, emendo o “com que roupa você tá“ no “pega e paga logo, não fica andando entre as gôndolas”. 

Não, não é paranoia minha. É o nosso dia a dia. É só olhar qualquer dado do Atlas da Violência que minha preocupação se confirma. Um homem negro, saindo da faixa dos 20 anos, como o meu marido, tem mais de 75% de chance de ser morto em relação a qualquer conhecido branco nosso. Na Paraíba, onde estamos, 8,9 negros morrem a cada pessoa não negra morta. 

Como é que não vou me preocupar com cada pequena ação que pode ajudar a evitar uma tragédia?

Vivemos com a sensação que não temos o direito de ir e vir e que também não temos direito de ficar parados na rua (porque aí nos tornamos suspeitos), em frente ao nosso apartamento, porque se errarmos a chave é possível que nos acusem de tentativa de arrombamento. E, por muitas vezes, não temos nem o direito de sequer sermos atendidos num lugar que queremos comprar algo, porque se cobrarmos resposta de um atendente de loja, por exemplo, estamos sendo “insolentes”.

No meu caso individual, sou uma mulher negra que tem o tom de pele mais claro, mas que sempre enxerguei o peso do meu corpo e o peso maior, o histórico, que vinha junto com ele. Eu já sabia que recebi junto com minhas raízes um tipo de preconceito que tinha cara e era tão comum e familiar quanto o sangue miscigenado que corre em minhas veias. Mas eu soube a vida toda lidar com essa discriminação. Com meia dúzia de palavras bem articuladas e evitando algumas pessoas, eu sentia que “resolvia” o problema. Era fácil. Nasci e cresci no sertão da Paraíba e o preconceito poderia me excluir e me fazer sofrer, mas nunca me mataria.

Quando eu conheci o meu marido, comecei a sentir o medo diário do racismo. Ele não tinha mais a cara familiar e, agora, não poderia só cortar minha alma, dentro do meu controle, sem deixar que me machucasse profundamente. Mas me apareceu uma outra face: a que fere a pele, que violenta a vida, que nos encontra nas paradas de ônibus, nas ruas, nos supermercados chamados Carrefour… que nos deixa sem reação e sem sinais vitais, e que nos coloca direto na estatística da vala. Atua em uma constância diária que eu não sei se vai deixar de ser um dia.

A impressão que tenho hoje, depois de alguns anos vivendo nessa perspectiva, além da insegurança, é que só podemos adiar os choros até quando conseguirmos. Pois quando o racismo nos encontra, o que pode ser a qualquer momento, eu não consigo evitar o “estrago” sozinha. 

Resta apenas a certeza que a pergunta que eu faço sobre a roupa de alguém que amo não é só uma pergunta.  É um indício de que por mais que cada um seja um corpo negro diferente, estaremos sempre unidos não só pelo casamento, como no meu caso, mas pela força e pelo medo do mundo que aumentam quando você ama outro corpo negro. 

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