Check-up de carisma 

Por: Érica de Oliveira

Sentada à espera de uma consulta no ginecologista. Com a pandemia, os encontros que eram muitas vezes semestrais, passaram a ter um espaço de mais de um ano. Ou seja, mais de um ano que não avalio meu corpo. Que não sei como se portam os meus ovários, o meu útero, meus seios. Qualquer mulher sabe o quanto assustador pode ser tudo isso. É quase que um dilema: medo de saber versus medo do que posso descobrir. 

Confesso que sinto falta de estar no controle, mas nada é tão desestimulante do que toda a questão que envolve os exames de rotina. Se você tem menos de 40 anos, o mais tranquilo deles será o ultrassom da mama. Caso contrário acrescente na lista, composta basicamente por ultrassom transvaginal, papanicolau e exames de sangue, a mamografia. Te juro, esses não são pontos altos da nossa vida. 

Como disse, estou há mais de um ano sem acompanhamento ginecológico. Muita coisa pode acontecer dentro de um ano. Órgãos outrora saudáveis, adoecem. Doenças não existentes, dão oi. Taxas que se comportavam super bem, rebelam-se. Pessoas que se viam com frequência, não se encontram mais. Tenho motivos para estar preocupada com tudo isso. Sinto meu pé suar um pouco. O corpo está inquieto. Três pacientes me separam do encontro com meu médico. 

Eis que, quando menos espero, avisto uma pessoa conhecida pela porta de vidro. Um ex-colega de trabalho. O suor que afetava apenas os pés agora se espalha pelo corpo inteiro. O corpo inquieto – e agora completamente molhado – entra quase em surto. Os três pacientes na minha frente se transformam em dez à medida que noto que o tal colega resolve aguardar também por atendimento na mesma sala que eu. É meu fim, penso. Laudo preliminar: morte próxima. 

Ele entra na sala, dá boa tarde. Respondo tentando mudar um pouco a voz e sem erguer tanto a cabeça, depositando uma fé imensa de que a máscara me salvará. Aparentemente, ele não me reconhece. Me espalho na cadeira e respiro aliviada, mas sem fazer movimentos bruscos. Não quero chamar atenção, vai que ele me olha e me reconhece. Tudo, Deus, menos isso. 

Olho nos olhos da secretária, como quem pede ajuda. E se chegar minha vez e ela soltar em alto e bom som: “Érica, pode entrar”. Não, ela não faria isso comigo. Ela não seria capaz. Começo a invocar todos os santos, torcendo para que cada uma daquelas três pessoas que me antecedem demore o tempo que for preciso dentro do consultório. Essa é minha única chance de escapar. 

De repente os anjos cantam e os arcanjos dançam: “Fulano, o médico te espera”. Ele se levanta sem olhar para os lados e a porta se fecha por trás dele. Fui salva. Mas. Pera. E ele se me ver na hora que estiver indo embora? Além de falar com ele, teremos que conversar sobre não termos reconhecido um ao outro. Desisto, é o meu fim. 

Entrego ao universo o meu destino. Começo a ensaiar tudo que direi ao encontrá-lo. “Nossa, como você mudou!”. Risos acrescidos de um “não reconheço ninguém de máscara”. Ou até mesmo um “achei que não ia falar comigo”. Meus pensamentos são interrompidos por um sonoro “Érica, sua…”. Não espero nem ouvir o final da frase.

Assim como fiquei um ano sem ginecologista, estou há mais de um sem psicólogo. Preciso voltar, fazer um check-up de carisma. Saindo daqui, marcarei um horário, penso enquanto caminho em direção à sala médica imensamente agradecida por ter chegado a minha vez de ter um espéculo inserido até o meu colo do útero. A vida é sobre resiliência, sempre.

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