Sobre não parar

Por: Marcela Quirino 

Há poucos dias eu conversei com minha avó pelo telefone, depois de um bom tempo sem falar com ela. Toda sem jeito, expliquei o motivo da minha ausência: eu tô numa correria danada. E ela, que poderia muito bem repreender essa neta desnaturada, trocou o puxão de orelha por palavras carinhosas e compreensivas. “Que coisa boa, minha filha! Graças a Deus! A vida só é boa assim, quando a gente não para”. Assim que desliguei o telefone, anotei essa frase na minha agenda. A vida só é boa quando a gente não para. Num primeiro momento isso me pareceu ser uma verdade absoluta, ainda mais na voz dessa mulher, dona de uma sabedoria que pra mim é incontestável. Instantes depois, ainda pensando nela – mas agora consumida pelo cansaço de uma semana cheia de trabalho e perrengue – me peguei questionando aquilo. É sério que isso é o bom da vida? Trabalhar até o esgotamento físico e mental? Não. Não foi isso que minha avó quis dizer. Não é essa a lição que eu vou tirar dessa fala.

Quem é mulher sabe: o que o mundo quer da gente é que fiquemos paradas – não no sentido literal, de ficarmos imóveis, mas no sentido de vivermos acomodadas a determinadas situações. Paradas em um relacionamento abusivo, paradas em um casamento fracassado, paradas em um emprego tóxico, paradas em uma vida medíocre e sem perspectivas de avanços. Querem que nós fiquemos quietinhas, inertes, reféns de uma sociedade que decide o que é “melhor” pra nós. E é aí que a gente precisa se mexer. É exatamente quando o mundo tenta controlar os nossos movimentos que a gente deve agir, seja com nosso corpo, seja com nossa voz, seja com nossa visão pessoal ou com nossas ferramentas profissionais. Todas essas opções são importantes estratégias de sobrevivência, cada uma a seu modo. Não importa qual tipo de atitude você toma: se você está disposta a mudar o cenário ao seu redor, você já está fazendo uma revolução.

Que fique claro: grandes revoluções também são feitas de pequenos gestos. Mudar de emprego, fazer uma viagem, abrir um negócio, cortar o cabelo, descobrir um novo hobby, fazer um curso, encontrar as amigas. Isso é se mexer. Isso é não parar. Não é sobre trabalhar até a exaustão, é sobre entender que o trabalho é apenas uma das muitas alternativas que nós temos nas mãos. É sobre inventar formas de fazer a vida valer a pena e a luta fazer sentido. É sobre entender que viver é como brincar de pião: é a gente quem puxa a corda e faz o brinquedo girar. Se ele para de rodar, ele cai – e você há de concordar que com a gente não é muito diferente. A gente precisa disso, de coisas que mantenham o corpo em movimento, a cabeça em ebulição e o coração em pleno funcionamento. Seja trabalhando no cargo mais alto de uma multinacional ou tomando uma cerveja gelada na mesa de plástico de um boteco qualquer, nós precisamos é da sensação de estarmos vivas.

Portanto, sim, minha avó estava certa: a vida só é boa quando a gente não para. Se tiver que parar, que seja pra respirar fundo, olhar para si com gentileza e recarregar as forças pra continuar mexendo as peças desse tabuleiro. Se parar, que seja pra ouvir aquela voz interior que diz que nós, mulheres, nascemos pra ser e fazer o que bem quisermos – a gente só não nasceu pra ficar parada.

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