A fala emana do falo 2

Por: Juliana Nóbrega

Há uns meses escrevi sobre os vícios machistas da linguagem, que usa o gênero masculino como padrão, o “neutro”. É como bem resume Simone de Beauvoir: “O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro”.

Vejo a linguagem como a expressão dos fenômenos, um contexto inquestionável e bastante didático para quem ainda tem dúvidas sobre viver em um mundo que oprime o gênero feminino.

Por um acaso vocês já ouviram uma mulher apresentar o seu companheiro como “homem”?: “Esse aqui é Bernardo, meu homem!”. Mas o inverso é real: “Essa aqui é Isabela, minha mulher!”. Homem e esposo não são sinônimos em nossa linguagem, mas mulher e esposa sim, pois, inquestionavelmente, mulher não é apenas um simples substantivo de gênero, mas um substantivo de condição de gênero.

Aviso, antes de continuar, que os próximos argumentos que trago não são argumentos político-partidários, mas argumentos politikos, como aquilo que regulamenta a polis. Nessa perspectiva, tudo é política, sobretudo, falar sobre gênero! Dito isso, sigamos.

Somos um país presidido pelo chefe do Executivo mais inábil quanto ao domínio da própria língua. De longe, temos o pior desempenho na “arte da oratória” presidencial. Colecionamos vexames internacionais. O presidente é dono de um vocabulário paupérrimo. Linguajar chulo, sobretudo para o cargo que ocupa. Incapaz de construir uma argumentação lógica e consistente.

É óbvio que essa conjuntura é um prato cheio para críticas, piadas e memes. Mas nenhum dos comentários sobre a inabilidade de comunicação do presidente está associado à sua condição de homem.

Já quanto à presidenta Dilma… É fato que também não era nenhuma sabiá da língua portuguesa. Saudou macaxeiras, viu cachorros em crianças e sugeriu estocarmos vento. Optou por uma estratégia de comunicação mais informal e democrática, mas não podemos negar que esparramou-se em algumas construções mal articuladas.

Entretanto, há uma diferença inegável quanto a forma como as pessoas se referem a ambos. Quem falou “essa mulher burra” não equivale: “Esse homem burro”. Talvez “burro”, “genocida” ou coisa que o valha, mas jamais um adjetivo lhe é empregado como uma consequência da sua condição de homem. E o mais interessante é que, neste caso, até cabia, pois o presidente nunca titubeou em expressar sua visão misógina sobre as mulheres. É mesmo um homem limitado.

Somos, todo o tempo, condicionadas ao nosso gênero. A expressão “condição de gênero” nunca fez tanto sentido! Nunca somos um ser humano, tão somente, mas sempre um ser humano mulher, fêmea, feminino. E é óbvio que o patriarcado não perde um segundo para atribuir o que chamam de “erros” à nossa condição de mulher, assim invalidam a nós como seres iguais e equivalentes.

Enquanto isso, os homens, os machos, seguem incólumes, deitados em berço esplêndido em seus privilégios e sua toxidade. Aliás, esse é o efeito quando romantizamos a feminilidade, como algo divinal ou especial. Bobagem seríssima, não é Beauvoir?! “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.

 

Tags:

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS POSTAGENS

Menu