O BBB nosso de cada dia

Por: Marcela Quirino

Pra mim, um dos ditados mais reais é aquele que diz que a vida imita a arte – e aqui eu vou substituir arte por entretenimento. Enquanto tantas pessoas têm, nas suas cabeças, uma voz interna que narra os principais fatos de suas vidas ao melhor estilo hollywoodiano, dentro de mim mora uma roteirista que insiste em comparar minha vida com um roteiro de novela melodramática. Como eu fui uma adolescente esquisita demais e interessante de menos, era impossível não me ver naquelas mocinhas que sofriam a trama inteira pra se dar bem no final. Pra minha sorte, o plot twist da minha história não demorou muito pra acontecer: já vi gente que me fez mal vindo pedir desculpa, vi gente que duvidou de mim reconhecendo que eu estava certa, vi gente que puxou o meu tapete escorregando na própria maldade. Dias de luta, dias de glória, como dizia o poeta.

Mas se o assunto é entretenimento, não dá pra deixar de falar dele, o reality que tá conseguindo a proeza de ser mais comentado do que o governo Bolsonaro. Não é só o roteiro de Malhação que me causa um profundo sentimento de identificação: o BBB também tem se mostrado um ótimo reflexo do que acontece aqui, do lado de fora da grande mídia. Entre mocinhas e vilões, vigiados pelas câmeras dos nossos smartphones, a gente também vive sendo sugado pela necessidade de vencer e pelo medo de errar. No jogo da vida real a gente normalmente não ganha um centavo, mas nos damos por satisfeitos quando temos a aceitação desse respeitável público composto por algumas centenas de seguidores e mais meia dúzia de amizades sinceras. Adversários existem por todos os lados. Provas de resistência acontecem todos os dias. E, às vezes, resistir a uma reunião de trabalho é mil vezes mais desesperador do que resistir a 29 horas em pé debaixo de sol e de chuva.

No BBB da vida real eu sou aquela que só quer ficar de boa. Enquanto a galera se mata, eu prefiro dormir. Enquanto falam uns dos outros, eu prefiro dançar e beber. E se quiserem me excluir por causa disso, agradeço a gentileza. Maldita seja essa inversão de valores que faz as pessoas se envergonharem de terem um bom caráter. E o pior é que não é só lá no reality que isso acontece: basta olhar ao seu redor e você vai ver a quantidade de gente que trata a vida como uma eterna competição. Ganha quem é mais esperto, quem tem ganância, quem topa tudo por dinheiro. Quem é justo, honesto e joga limpo infelizmente não se destaca nesse jogo: estamos fadados a enfrentar um paredão de boletos para pagar e sapos para engolir. O preço que se paga por ser correto é alto, mas de prestação em prestação a gente consegue seguir com o nome limpo (e as mãos também).

Aqui dentro de mim, onde câmera nenhuma consegue alcançar, eu sei perfeitamente qual é o jogo que eu tenho que jogar. Sei quem tá do meu lado. Sei quem pensa como eu. Sei quem discorda de mim. Sei quem finge ser amigo mas fala mal quando eu saio de perto. Sei quem vai tomar as minhas dores e comprar as minhas brigas. Sei quem tá sempre esperando uma oportunidade de me prejudicar. Mas sei, também, que tá tudo bem se eu não souber de nada. Que a qualquer momento eu posso me decepcionar com as pessoas, e que é preferível ser a ingênua do que a cruel da história. Deixe que digam, que pensem, que falem. Deixe que julguem, que persigam, que ataquem. Deixo pra eles o peso de suas maldades e ganâncias. Comigo, trago a leveza de saber que eu posso perder o jogo, mas não vou, nunca, perder meus princípios. Melhor do que ganhar um milhão de reais é ganhar, todos os dias, uma boa noite de sono.

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