sobre o medo da rejeição

e se encontrar sempre nesse papel de objeto rejeitado.

Por: Paula Beatriz, colaboradora do Nossa Fala 

quando eu era criança, meu corpo e minha cor sempre eram pauta de qualquer conversa familiar. era como se fosse o alívio cômico, o bobo da corte, aquilo que serve pra relembrar que não importa o quão feia você se sinta, nem tudo estava perdido, pois você não era eu, afinal. na escola, não era muito diferente. no auge da minha heterossexualidade compulsória, tudo o que eu queria era que pelo menos um menino me notasse, seja mandar uma cartinha de amor se confessando ou apenas me olhar. porquê doía demais ser sempre umas das top 3 meninas mais feias da classe. mesmo fazendo de tudo para passar despercebida, eu era vista. mas não com bons olhos.

o que eu mais falo hoje em dia para as pessoas, não importa qual problema elas estejam lidando, é: não ignore! vai virar uma bola de neve, vai acumulando e acumulando… até que um dia vai explodir e vai ser fora de proporção. e foi assim que eu me tornei a selvagem da sala. inúmeras vezes minhas primas e até meu pai me tirava de dentro do banheiro dos meninos (agredindo algum deles) quando ia me buscar na escola. eles sentiam algum tipo de prazer sádico em me fazer sofrer e eu não sabia mais ignorar, partindo pra agressão que não era impedida por uma placa de “banheiro masculino”. eu nunca tinha desejado tanto que os meninos parassem de ver como bicho e começassem a me dar uma atenção positiva. e quando isso aconteceu, eu nunca me arrependi tanto de ter desejado algo. de selvagem, eu fui convertida para objeto. e vem sido assim até o auge dos meus 20 e poucos anos.

entende como isso nunca foi aceitação? é engraçado assumir que eu tenho medo da rejeição a níveis de gatilho, sendo que ao olhar pra minha caminhada eu raramente vejo aceitação alguma. parafraseando o paradoxo de Adler, que diz que o complexo de superioridade se dá pela presença de um complexo de inferioridade; eu digo que meus gatilhos com rejeição vêm de um sentimento de pouquíssima aceitação. e aí eu caio no erro de me olhar pelos olhos dos outros”, afinal deve ter alguma coisa de errada comigo pra eu nunca ser aceita e constantemente ser vista como um objeto a ser comprado e depois jogado fora. deve ter alguma coisa de muito errada comigo por eu me achar mais amiga dos meus amigos do que eles de mim. por que quando eu choro, eles não vêm estender o ombro amigo pra mim? se eu não hesito em estender o meu? por que eu sempre saio como a maluca abusiva que não aceita o termino quando, na verdade, eu só queria que pelo menos no fim houvesse respeito? e então, a bola de neve explode. por que eu sinto como se eu fosse um objeto que só é útil no seu uso, me sinto descartada. e depois de tanto tempo sentindo isso, nem sempre é possível segurar a raiva que ser colocada nesse lugar ainda me traz.

não tenho a resposta para isso, não sei porque acontece. mas agora, depois de muita terapia e autoconhecimento, eu sei que não há nada de errado comigo, não há nada de errado em ser humana e, por fim, um ser errante. eu procurei, procurei, juro que procurei algum defeito fora da curva. algo que explicasse tudo isso e que eu pudesse corrigir pra que isso não mais aconteça. meus defeitos são iguais ao de todo mundo. aprendi a não odiar minhas imperfeições que sei que não são só minhas, a maioria das pessoas também as tem. por que eu deveria permitir que alguém faça eu me sentir mal por não reagir bem ao meu pior gatilho? não é sobre ser um psicólogo, é sobre ter empatia e noção de que existem pessoas no auge dos seus 20 e poucos anos ainda vivendo e trabalhando seus traumas, suas limitações.

eu tenho inseguranças, eu tenho medos, eu tenho gatilhos, manias, traumas… eu sangro. igual a todo mundo. por que eu não posso sangrar?

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