Sim, eu preciso de filtro 

Por: Patrícia Rocha 

Eu não sei se fico lisonjeada ou acuada. Eu não sei se tomo como um elogio ou como uma cobrança por provar que eu continuo dentro de um padrão.

– Mostra sem filtro! Você não precisa de filtro!

Disse uma seguidora um dia desses quando eu resolvi expor meu botox recém colocado. Eu queria mostrar que a ruguinha sumiu, mas não uma pele impecável, bochechas rosadas e um delineador perfeito. Pra isso eu preciso de filtro! Deixem meus filtros! Eu quero a liberdade de mostrar só o que eu quiser, quando eu tiver pronta pra isso. Ou será que só sou digna de aparecer em stories alheios quando eu tiver impecável-leia-se-nunca?

Os filtros do Instagram são a versão pixelizada das máscaras sociais que usamos desde sempre. A gente se disfarça desde que aprendeu que viver em sociedade é interpretar personagens “necessários” nos seus mais variados espaços.

Sim, eu preciso de filtros. Não só para as minhas olheiras, espinhas, assimetrias ou qualquer incorreção. Eu preciso de filtros porque o padrão insaciável também me massacra. É assim que funciona. Não é possível deixar ninguém em um patamar confortável de aceitação. O padrão sempre vai cobrar por mais.

E, assim como nas relações humanas, na internet também só há libertação quando há amor-próprio. Só expõe seus defeitos quem não precisa de validação alheia. Assim como seria impensável sacudir um paninho na cara de uma mulher na rua para que ela tire a maquiagem, por favor, não me force a aparecer sem filtro. Me permita esconder o que eu não quero mostrar.

Cansei de ler que a influenciadora que morreu recentemente depois de uma lipo perdeu para a vaidade. Se ela não precisava de uma lipo, então quem precisa? É aceitável que as mulheres gordas corram para as clínicas de estética, mas as magras não? Ora, se a justificativa socialmente aceita é a forma como cada uma se enxerga, porque medimos a necessidade de uma cirurgia estética pelos tamanhos dos nossos corpos?

“Você não precisa de filtro” significa, então, que outras precisam. E, embora a intenção pareça boa, eu nunca vou me sentir livre enquanto as amarras continuarem existindo, mesmo que em outros punhos.

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