A impostora que habita em mim saúda a impostora que habita em você

Por: Érica de Oliveira

De dezembro pra cá vivenciei a pior crise criativa da qual há registros na minha história. Pela primeira vez, senti que dentro de mim não havia mais nada o que compartilhar, o que dividir. Não foi um sentimento que chegou aos poucos, que foi dando alertas. Apenas veio com tudo e ficou. Poderia culpar a pandemia. Afinal, meses e meses em casa afetam, de fato, a vida de quem cria a partir de narrativas pessoais, que é o meu caso. Poderia culpar também alguém que não soube tecer críticas sobre algo que produzi. Sempre é fácil colocar a culpa no outro. Poderia justificar dizendo que estou cansada. Mas escrever sempre pareceu férias para mim. 

Juro, tentei acreditar em todas essas possibilidades. O fato de ter decidido não culpar nada nem ninguém não facilitou o processo. Muito pelo contrário: se não achar um culpado, como reivindicar justiça? Eu precisava da minha criatividade de volta, sob pena máxima de nunca me encontrar novamente. Escrevo desde criança. Essa foi a forma que descobri desde sempre de como ser forte e compreendida. De ser quem eu sou. Durante a maior parte da minha vida, escrevi para mim, em uma maneira única de me conectar comigo mesma. A maior prova disso é que meus desencontros pessoais aconteceram sempre em meus hiatos de escritas. Notado isso, nunca mais parei de escrever. 

Mas-eu-estava-parando-de-escrever-novamente. Tentei encontrar motivações. Passei a ver documentários sobre arte, ver filmes aleatórios, comprei livros novos. Ali eu poderia encontrar a inspiração e criatividade que havia perdido. Apesar de também trabalhar com a escrita, não eram os prazos que me assustavam, mas a ideia de me perder no tempo e nunca mais conseguir estabelecer conexão comigo mesma. Eis que, junto de um dos livros que comprei nessa busca louca pela minha criatividade perdida, chega um bilhete com a seguinte frase: “Faça por você o que ninguém fará. De Érica de Oliveira”. E uma frase simples, clichê, nunca poderia ter feito tanto sentido. Uma frase escrita por mim mesma, em um momento de total desespero, trouxe a mensagem que eu precisava. 

Naquele mesmo momento eu entendi: às vezes só precisamos ser lembradas de lutar por nós mesmas, de confiarmos no nosso potencial. Apenas eu tenho o poder de trazer a minha criatividade de volta, apenas eu tenho o poder de trazer a minha escrita de volta, apenas eu tenho o poder de me trazer de volta. Eu estava claramente me autossabotando, afastando de mim a coisa mais importante da minha vida, esperando uma aprovação e um aval do universo, mas que só poderia vir de mim mesma. Por isso, e acho que você irá me compreender, comecei o meu primeiro texto pós-bloqueio criativo assim: “A impostora que habita em mim saúda a impostora que habita em você”.

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