Ritual do acasalamento

Por: Yane Diniz 

Meu momento comigo – skincare, autocuidado e termos da modernidade para fingir que temos controle sobre nossos corpos – isso aqui acontece enquanto lavo os pratos. É noite, tudo dorme e o resto é silêncio, posso escolher a música tema para o grande evento que é receber prêmios imaginários de categorias inventadas.

E o “troféu faca de pão que corta abacaxi” vai para a senhora eu mesma, que me dediquei com maestria ao domínio de meus impulsos, evitando surtos e gerenciando casa, filho, marido e uma família meio doida. Agora, pelo empenho em segurar essa barra que é gostar de você, receba, senhora, menção honrosa pelos grandes feitos em sua autoestima e saúde mental, todos sabemos como foi difícil a disputa com todos os monstros de sua cabeça.

Parabéns pelo esforço, temos uma pia livre do amontoado desafiador de louça, copos, taças de cristal e qualquer vestígio do que nos alimenta diariamente, agora no fundo da pia. Terapia cheia de pratos. É engraçado – engraçado não é exatamente a palavra – como o que nutre e cativa pelos sentidos em mesa posta, finda o dia como nojo de meter a mão em ralo escuro.

Alguém precisa fazer o trabalho sujo, certamente uma mulher.

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