Vou ter que falar de amor

Por: Marcela Quirino

Perdão, querida leitora que esperava uma crônica sobre o caos político nacional. Perdão, caras amigas que se acostumaram ao meu discurso anti-romântico. Perdão, querido esposo que mede a minha temperatura a cada raríssimo momento em que eu falo um “eu te amo”. Perdão, mas hoje eu vou ter que desapontar vocês, hoje eu vou ter que falar de amor.

Já são quase três décadas de vida e só agora eu tive contato com o real conceito desse sentimento. Não que antes eu não amasse ou não soubesse o que era o amor, mas foi nesses últimos tempos que eu descobri que existem estudos, pesquisas e teorias que realmente se debruçam sobre esse tema. Foi no início da quarentena, pra ser mais precisa. Fui convidada a integrar um grupo de pessoas que se dedicam a estudar e discutir o amor e, depois de me surpreender com o ineditismo da proposta, só consegui pensar como deve ser incrível você viver disso. Imagina aí alguém perguntar com o que você trabalha e você responder: com amor.

Uma das primeiras tarefas propostas por esse grupo foi para que cada participante usasse algum artefato que o lembrasse, todos os dias, o que é o amor. Podia ser um objeto, uma fotografia, qualquer coisa. Não sei exatamente por qual motivo, a primeira coisa que me veio à cabeça foi um desenho que ganhei de um dos meus sobrinhos. É o desenho de um monstro, um monstro marrom, laranja, azul e vermelho, desenhado em papel couchê tamanho A3. Ao lado dele, está escrito: Tia Mah. Não sei se isso significa que o monstro sou eu ou se eu apenas fui promovida à dona do monstro. Só sei que pra mim aquela era uma das mais lindas demonstrações de amor. Colei o desenho na parede do meu quarto e segui a vida.

Eis que hoje eu concluí a minha primeira leitura sobre o assunto: o livro “Por que amamos”, de Renato Noguera, é um verdadeiro tratado filosófico e mitológico sobre o amor. Nele, Noguera fala sobre amores de todos os tipos, como o amor romântico de Romeu e Julieta, o amor policonjugal de Xangô e Ogum e até mesmo o amor platônico de Clarice Lispector por Lúcio Cardoso, amigo homossexual por quem Clarice nutria uma profunda admiração. Resumindo: terminei o livro com a cabeça (e o coração) a mil. Descobri que passei a vida inteira tendo uma ideia totalmente superficial do amor. Ou melhor: passamos. Você certamente também cresceu achando que o amor era uma princesa com seu príncipe sobre um cavalo branco ao som de violinos e flautas transversas, quando na verdade o amor é uma criança com uma burrica no carnaval multicultural do Recife.

O amor é livre e leve, mas ao mesmo tempo é complexo e possui camadas mais profundas do que a nossa mente adestrada é capaz de alcançar. E sabe o que é mais curioso? É que enquanto eu processava todos os meus aprendizados, descobri que talvez eu já soubesse bastante sobre o amor quando escolhi, alguns meses atrás, o objeto que melhor representava o sentimento para mim. O amor é mais ou menos como aquele monstro: talvez ele seja um pouco assustador, mas também tenha um certo encanto. Talvez ele esteja em um armário escuro, mas na verdade seja todo colorido. Talvez ele tenha alguns defeitos, mas ainda assim seja maravilhosamente lindo. Talvez muita gente diga que ele não existe, mas vai mudar de ideia assim que receber ele de presente.

Estejamos abertos, então. Para apreciar a beleza dos monstros. Para enxergar a grandiosidade do amor.

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