Insônia

Por: Gi Ismael

O relógio acusa três da manhã. Não foi um despertar programado, acontece que o ritmo dos meus sonhos estava tão acelerado que não deu nem tempo de colocar um paninho em cima deles, dos sonhos, para evitar que escoassem para meu estado lúcido (é sonho quando a gente sonha com demandas de trabalho?). Muitas palavras bonitas para expressar o seguinte sentimento: “Cacete, não acredito que tô acordada a essa hora!”.

Tento técnicas de respiração e meditação, sem sucesso. Sinto calor e frio, frio e calor, um desgastante coloca coberta, tira coberta, tira pijama, coloca coberta. Queria ser nesse momento um peso de papel, sabe? Não consigo. Fico mais para tiras de papel amarradas num ventilador, inquietas mas sem sair do perímetro permitido.

Como é aquela música? “Keeping an eye on the world going by my window/Taking my time/Lying there and staring at the ceiling/Waiting for a sleepy feeling”… tan dan dan dan dan dan. Essa foi uma das primeiras músicas que aprendi no violão. Bocejo. Por que diabos eu tô acordada mesmo?

Estou quase me dando por vencida, só quase. Pego um livro da minha cabeceira, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez. Começo a ler com esperança de um melhor aproveitamento de tempo ou, quem sabe, um afago que me dê sono. Li algo sobre lupas e ímãs e ciganos e terraplanistas. Um longo suspiro impaciente e acabo de assumir que o  tal efeito sonífero deu lugar para um cansaço ocular. 

“I’m only sleeping”… ainda não parei de pensar na música.

Bem, luto para não pegar o celular. Perco feio. Desbloqueio, diminuo o brilho, olho o relógio: são 3:34, pisco os olhos, 4:02. Não foi um cochilo, foi a prova viva de que o tempo salta a cada scroll na tela.

Tela.

Começam as notícias ruins e sei que é o momento de deixar o smartphone de lado. Olho para cima e vejo outra tela. É a da minha janela. Troco a rede da Internet pela rede de proteção. Através dela, numa perfeita moldura, está uma estrela. “Isso daria um belo texto”, penso. A exato um losângulo de distância, mais outra. Ou seria um planeta? Me disseram que, para diferenciá-las, basta observar com atenção: se pisca, é um astro. Aperto os olhos, mas não chego à uma conclusão. Observar o céu quando se é míope é complicado. Pisco. Pisco mais algumas vezes e, naquele momento oportuno de me tornar estrela, 

apago.

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