Chorar é para as fortes

Por: Mayara Medeiros, colaboradora do Nossa Fala 

Como uma mãe precisando esconder o seio em público, mesmo com o filho aos berros, sentindo fome, para mim, disfarçar as lágrimas sempre foi algo como “esconder as vergonhas”. 

Assim como um seio exposto atrai olhares que vulgarizam um simples ato exigido pela natureza de qualquer ser mamífero, chorar, também tão tipicamente humano, precisa ser algo secreto, escondido. 

A sociedade exige tanto de nós, não é? Se, por um lado, “Boys Don’t Cry” (Garotos Não Choram, um clássico do The Cure, uma banda britânica de rock que transformou o clamor de tantos homens em um hino), garotas NÃO DEVEM chorar, pois só estariam reforçando o velho estereótipo de ‘moçoila frágil com roupas brancas de seda e flores no cabelo’.

Mas se ‘entupir’ com as lágrimas e soluçar baixinho não é bem algo que nos dizem para fazer. Não abertamente, com palavras carinhosas, e sim com gritos mudos, que a gente sente bem fino na alma, que enxergamos nos barulhos e ruídos rasgados no silêncio dos olhares sujos, fitados contra nós a cada rua que atravessamos. “Essa mulher só pode ser louca, triste e chorando SEM MOTIVO?”

Nem todas nós, mulheres, paramos para refletir sobre isso em algum momento da vida. Na tentativa incessante de provar que somos fortes, franzimos a testa e travamos os dentes ferozmente, na esperança de conter as lágrimas, fazer com que elas ‘voltem’ para dentro dos olhos. Só que essas gotas são insistentes e acabam escorrendo quentinhas pelo rosto, mesmo que discretas, até molharem os lábios, bem salgadas, sendo o gosto de mais uma batalha travada contra o direito de sentir as dores do mundo.  

É subestimando as nossas lágrimas que eles se tornam fortes. É por ter as lágrimas minimizadas que tantas mulheres desistem de tentar. É por serem tachadas de ‘loucas’ que tantas delas são agredidas e só choram no escuro, antes de dormir, quando ninguém vê. Foi por ter as lágrimas constantemente descredibilizadas que aquela mulher tornou-se tão ‘fria’ e ainda foi obrigada a ouvir que “só pode ser falta de sexo”, típico discurso machista que só alimenta essa cultura do ódio contra o sexo feminino. 

Seguimos, desde cedo, sendo ensinadas que podemos ser várias coisas, menos o que realmente somos. Induzidas a mostrar vulnerabilidade para poder ser ‘mulher de verdade’, em controvérsia, não podemos chorar por aí, porque seremos meras garotas tristes e loucas.

É importante ser dito que não, não somos loucas e frágeis quando essas lágrimas resolvem dar o ar da graça em plena fila do supermercado. Não podemos e nem devemos pagar o preço por viver em uma sociedade em que reprimir os próprios sentimentos é um exemplo a ser seguido.

E hoje, ao ver um cavalo em pleno sol do meio-dia, no asfalto, esperando o dono chegar com a carga, desabei no choro, no meio da rua, ao mesmo tempo em que ouvi a ‘vozinha’ interna de sempre me negligenciando, me esquecendo, pois, em certos momentos, pega mal sofrer. Não contive e chorei alto. Muitos viram. 

A escravidão animal é algo que me desestabiliza. Esse é o meu direito. Meu ‘choro’ nunca será ‘besteira’. Nem o seu. Chorar é para as fortes.

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